SpaceX realiza lançamento polar desde Cabo Canaveral

A SpaceX levou a cabo com sucesso o seu 100.º às 2318:56UTC do dia 30 de Agosto de 2020 a partir do Complexo de Lançamento SLC-40 do Cabo Canaveral AFS, Florida. Todas as fases do lançamento decorreram sem problemas e os satélites foram colocados na orbita polar prevista. De notar que já não se realizavam missões a partir do Cabo Canaveral com destino a uma órbita polar, desde 26 de Fevereiro de 1969, quando o foguetão Thor Delta-E1 (483/D67) colocou em órbita o satélite meteorológico ESSA-9 (TOS-G).

Nesta missão a SpaceX utilizou o primeiro estagio Block V (B1059.4), o mesmo que foi usado para a missões CRS-19, CRS-20 e Starlink 8, e que aterrou às 23:2549UTC na Zona de Aterragem 1 (Landing Zone 1 LZ-1) do Cabo Canaveral.

Nesta missão não foi tentada a recuperação de ambas as metades das carenagens de protecção de carga pelas embarcações “Ms. Tree” e “Ms Chief” que possuem redes para esse efeito. Foram retiradas do mar no lugar da recuperação pelo ar.

A bordo desta missão seguiam os satélites SAOCOM-1B, GNOMES-1 e Tyvak-0172.

O satélite SAOCOM-1B é operado pela Agência Espacial Argentina, pela Comissão Nacional das Actividades Espaciais (CONAE). O satélite transporta um instrumento activo consistindo num radar de abertura sintética (Synthetic Aperture Radar) que trabalha no alcance das micro-ondas do espectro electromagnético, particularmente da banda- L.

A missão SAOCOM 1 consiste numa constelação de dois satélites idênticos, SAOCOM-1A e 1B, cada um carrega um instrumento polarimétrico SAR L-Band. O principal propósito da missão é reunir informação da humidade do solo. O SAOCOM-1 juntamente com a constelação Italiana COSMO-SkyMed X-Band SAR compreendem o sistema de satélites de gestão de emergências Italiano-argentino (Italian-Argentine Satellite System for Emergency Management – SIASGE), uma parceria entre a CONAE e a Agência Espacial Italiana (ASI). Tendo as duas constelações a voar na mesma órbita dão suporte e uma rápida resposta fornecendo ao SAR informação em situações de emergência. Conta com parcerias internacionais de suporte terrestre da ESA(Europa), suporte técnico da CSA (Canadá) e da NASA (EUA).

O SAOCOM (SAR Observation & Communications Satellite) foi desenvolvido pela CONAE, no âmbito do Programa Nacional Espacial com a participação de empresas e organizações do sistema nacional de ciência e tecnologia, tais como, Comissão da Energia Atómica (CNEA) e empresas como a VENG e INVAP que são os contratantes principais do projecto.

Os satélites GNOMES (GNSS Navigation and Occultation Measurement Satellites) constituem uma constelação de pequenos satélites da PlanetiQ. Esta constelação irá oferecer dados da variação das ondas de radio de sistemas de GPS para previsões meteorológicas, investigação climatérica e monitorização de meteorologia espacial. A Blue Canyon Technologies irá construir 12 satélites. Cada um tem a própria tecnologia de medição da variação das ondas de radio GPS e propulsão própria. Cada satélite tem uma massa de cerca de 30 kg.

O Tyvak-0172 foi desenvolvido pela Tyvak Nano-Satellite Systems. Os detalhes sobre as suas dimensões e missão são desconhecidos.

Lançamento

O foguetão Falcon-9 é activado a T-10h 00m. Tanto o lançador como a sua carga são submetidos a uma série de verificações testes antes do início do abastecimento do querosene RP-1. O Director de Voo consulta os controladores a T-38m, determinando assim se tudo está pronto para o lançamento. O processo de abastecimento inicia-se a T-35m no primeiro estagio,seguindo-se o início do abastecimento do oxigénio líquido (LOX) ao mesmo tempo e no segundo estagio a T – 16m.

 

A fase terminal da contagem decrescente inicia-se com os motores a serem condicionados termicamente para o lançamento a T-7m. A T-1m é enviado um comando para o computador de voo para iniciar as verificações pré-lançamento e o sistema de supressão sónica por água é activado na plataforma de lançamento. Por esta altura os tanques de propolente também são pressurizados A T-45s o Director de Lançamento da SpaceX verifica se todos os parâmetros estão prontos para o lançamento. Na mesma altura, é verificado que o espaço aéreo está pronto para o voo. A sequência de ignição é iniciada a T-3s. A T=0s o foguetão abandona a plataforma.

Abandonando a plataforma de lançamento, o Falcon-9 inicia uma série de manobras para se colocar na trajectória de voo correcta. A fase MaxQ, de máxima pressão dinâmica, é atingida a T+1m 12s. O final da queima do primeiro estágio ocorre a T+2m 17s, dando-se três segundos depois a separação entre o primeiro e o segundo estágio. O segundo estágio entra em ignição a T+2m 27s. A ejecção da carenagem de protecção ocorre a T+3m 43s. O primeiro estagio reentra a T+6m 24s, aterrando com sucesso no Cabo Canaveral.

O final da primeira queima do segundo estágio ocorre a T+10m 8s. O satélite SAOCOM-1B separa-se a T+14m 8s. Segue-se uma fase não propulsionada de cerca de 40 minutos. A separação do satélite GNOMES-1 ocorre a T+1h 1m 39s, enquanto que o Tyvak-0172 se separa a T+1h 2m 19s.

Texto: Salomé T. Fagundes

O foguetão Falcon-9

Baptizado em nome da nave Millenium Falcon da saga cinematográfica “Guerra das Estrelas”, o foguetão Falcon-9 v1.1 era um lançador a dois estágios projectado e fabricado pela SpaceX para o transporte seguro e fiável de satélites e do veículo Dragon para a órbita terrestre. Sendo o primeiro foguetão completamente desenvolvido no Século XXI, este lançador foi projectado desde o início para ter a máxima fiabilidade. A sua simples configuração de dois estágios minimiza o número de eventos de separação (staging) e com nove motores no primeiro estágio, pode completar a sua missão em segurança mesmo na possibilidade de perda de um motor.

O Falcon-9 fez história em 2012 quando colocou a cápsula Dragon na órbita correcta para uma manobra de encontro com a estação espacial internacional, fazendo da SpaceX a primeira companhia comercial a visitar a ISS. Desde então, a SpaceX realizou múltiplas missões para a ISS transportando e recolhendo carga para a NASA. O Falcon-9, bem como a cápsula Dragon, foram desenhados na base do desenvolvimento de um sistema de transporte de astronautas para o espaço e num acordo com a NASA, a SpaceX está activamente a trabalhar para atingir esse objectivo.

O foguetão Falcon-9 Upgrade, ou Falcon-9 FT, (a seguir designado simplesmente como ‘Falcon-9’) representa a mais recente evolução deste lançador. De forma geral o Falcon-9 tem 68,4 metros de comprimento, 3,7 metros de diâmetro e uma massa de 541.300 kg. O veículo é capaz de colocar uma carga de 13.150 kg numa órbita terrestre baixa ou 4.850 kg numa órbita de transferência geossíncrona.

O primeiro estágio do Falcon-9 está equipado com nove motores Merlin (Merlin-1D) e tanque de liga de alumínio e lítio que contêm oxigénio líquido e querosene RP-1. Após a ignição, um sistema de segurança fixa o veículo na plataforma de lançamento e garante que todos os motores são verificados como estando na força máxima antes de libertar o foguetão para o seu voo. Então, com uma força superior a cinco aviões Boeing 747 em potência máxima, os motores Merlin lançam o foguetão para o espaço. Ao contrário dos aviões, a força de um foguetão vai aumentando com a altitude – o Falcon-9 gera 6.806 kN ao nível do mar mas atinge 7.426 kN no vácuo espacial. Os motores do primeiro estágio vão sendo aumentados em potência perto do final da queima do estágio para assim limitar a aceleração do veículo à medida que a massa do lançador vai diminuindo com a queima do combustível. O tempo total de queima do primeiro estágio é de 162 segundos.

Com os seus nove motores agrupados juntos na configuração ‘octaweb’, o Falcon-9 pode aguentar a falha de até dois motores durante o lançamento e mesmo assim conseguir atingir a órbita terrestre com sucesso. O Falcon-9 é o único lançador na sua classe com esta característica chave.

O motor Merlin foi desenvolvido internamente pela SpaceX mas vai encontrar as suas raízes aos motores das missões Apollo, nomeadamente o sistema de injecção baseado no motor do módulo lunar. O propolente é alimentado através de uma única conduta, com uma turbo-bomba de dupla pá que opera num ciclo de gerador a gás. A turbo-bomba também fornece o querosene a alta pressão para os actuadores hidráulicos, que depois recicla para a entrada a baixa pressão. Isto elimina a necessidade de um sistema hidráulico separado e significa que não é possível ocorrer uma falha no controlo de vector de força por falta de fluido hidráulico. Uma terceira utilização da turbo-bomba é o fornecimento de controlo de rotação ao actuar no escape da turbina de exaustão (no segundo estágio). Combinando-se estas características num só dispositivo aumenta-se assim de forma significativa o nível de fiabilidade do sistema.

O motor é capaz de desenvolver uma força de 654 kN ao nível do mar, 716 kN no vácuo, com um impulso específico de 282 segundos (nível do mar) e 311 segundos (vácuo).

A secção interestágio é uma estrutura compósita que liga o primeiro e o segundo estágio e alberga os sistemas de libertação e separação. O Falcon-9 utiliza um sistema de separação totalmente pneumático para uma separação de baixo impacto e altamente fiável que pode ser testado no solo, ao contrário dos sistemas pirotécnicos utilizados na maior parte dos lançadores.

O segundo estágio é propulsionado por um único motor Merlin de vácuo e coloca a carga a transportar na órbita desejada. O motor do segundo estágio entra em ignição poucos segundos após a separação entre o segundo e o primeiro estágio, e pode ser reiniciado várias vezes para colocar múltiplas cargas em diferentes órbitas. Para máxima fiabilidade, o segundo estágio está equipado com sistemas de ignição redundantes. Tal como o primeiro estágio, o segundo estágio é feito a partir de uma liga de alumínio e lítio.

O motor Merlin de vácuo (Merlin-1D de vácuo) desenvolve uma força de 934 kN e o seu tempo de queima é de 397 segundos.

SES-9Falcon 6

A carenagem compósita é utilizada para proteger a carga durante a passagem do Falcon-9 pelas camadas mais densas da atmosfera. Quando a missão do Falcon-9 é o lançamento do veículo de carga Dragon, a carenagem não é utilizada pois a cápsula possui o seu próprio sistema de protecção.

A carenagem tem 13,1 metros de comprimento e 5,2 metros de diâmetro. Fabricada em fibra de carbono, separa-se em duas metades utilizando um sistema de separação de actuadores pneumáticos semelhantes aos que são utilizados para a separação entre o primeiro e o segundo estágio.

Lançamento Veículo 1.º estágio Local

Lançamento

Data

Hora (UTC)

Carga Recuperação
2020-019 083 B1048.5 KSC

LC-39A

18/Mar/20

12:16:39,428

Starlink v1.0 (x60) L5 Oceano Atlântico
2020-025 084 B1051.4 KSC

LC-39A

22/Abr/20

19:30:30

Starlink v1.0 (x60) L6 OCISLY

(Oc. Atlântico)

2020-033 085 B1058.1 KSC

LC-39A

30/Mai/20

19:22:41

Crew Dragon DM-2 OCISLY

(Oc. Atlântico)

2020-035 086 B1049.5 CCAFS

SLC-40

04/Jun/20

01:25:33

Starlink v1.0 (x60) L7 JRTI

(Oc. Atlântico)

2020-038 087 B1059.3 CCAFS

SLC-40

13/Jun/20

09:21

Starlink v1.0 (x58) L8

SkySat-16

SkySat-17

SkySat-18

OCISLY

(Oc. Atlântico) 

2020-041 088 B1060.1 CCAFS

SLC-40

30/Jun/20

21:10:46,615

GPS-III SV03 “Columbus” (USA-304) JRTI

(Oc. Atlântico)

2020-048 089 B1058.2 CCAFS

SLC-40

20/Jul/20

21:30

ANASIS-II JRTI

(Oc. Atlântico) 

2020-055 090 B1051.5 KSC

LC-39A

7/Jul/20

16:15

Starlink v1.0 (x57) L9

BlackSky Global-7

BlackSky Global-8

OCISLY

(Oc. Atlântico)

2020-057 091 B1049.6

CCAFS

SLC-40

18/Ago/20

14:31:16

Starlink v1.0 (x58) L10

SkySat-19

SkySat-20

SkySat-21

OCISLY

(Oc. Atlântico)

2020-059 092 B1059.4

CCAFS

SLC-40

30/Ago/20

23:18:56

SAOCOM-1B

GNOMES-1

Tyvak-0172

Cabo Canaveral

LZ-1

A sequência de lançamento para o Falcon-9 é um processo de precisão ditada pela janela de lançamento de cerca de uma hora tendo em conta a posição orbital a ser ocupada pelo satélite. Se a janela de lançamento de uma hora é perdida, a missão é então adiada para o dia seguinte.

Cerca de quatro horas antes do lançamento, inicia-se o processo de abastecimento – primeiro oxigénio líquido seguindo-se o querosene altamente refinado (RP-1). O vapor que se observa a sair do lançador durante a contagem decrescente é na realidade oxigénio a ser libertado dos tanques, sendo esta a razão pela qual o abastecimento de oxigénio líquido se mantém até quase ao final da contagem decrescente.

Texto e tabela: Rui C. Barbosa



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