SpaceX lança Eutelsat-10B

A empresa norte-americana SpaceX realizou uma nova missão comercial ao colocar em órbita o satélite de comunicações Eutelsat-10B.

O lançamento teve lugar às 0257UTC do dia 23 de Novembro de 2022 e foi realizado pelo foguetão Falcon 9-186 (B1049.11) a partir do Complexo de Lançamento SLC-40 do Cabo Canaveral SFS, Florida. O primeiro estágio B1049 não foi recuperado tal como estava previsto devido às características da missão.

Esta missão constituiu o 53.º lançamento da SpaceX em 2022, sendo o 158.º lançamento bem sucedido consecutivo de um foguetão Falcon-9, o 162.º lançamento bem sucedido consecutivo da SpaceX, o 186.º lançamento de um  foguetão Falcon-9 e o 195.º lançamento da SpaceX.

O Eutelsat 10B é um satélite de comunicações com propulsão eléctrica que foi construído pela Thales Alenia Space para a Eutelsat Communications para o fornecimento de conectividade em voo e marítima.

O acordo para a construção do Eutelsat-10B foi assinado em Outubro de 2019. Baseado na plataforma Spacebus-Neo-200, o Eutelsat-10B transporta duascargas de banda-Ku HTS de multi-feixes: uma carga de alta capacidade, cobrindo o corredor da América do Norte, Europa, o Mediterrãneo e o Médio Oriente, proporcionando uma capacidade significativa nas zonas de trafego aéreo marítimo e aéreo mais intensas; uma segunda carga, para alergar a cobertura para o Oceano Atlântico, África e o Oceano Índico.

As cargas HTS do satélite serão capazes de processar mais de 50 GHz de largura de banda, proporcionando uma capacidade de cerca de 35 Gbps. Toda a carga do satélite é processada digitalmente, fornecendo a capacidade de flexibilidade de alocação graças a um processador digital transparente.

O Eutelsat 10B transporta duas cargas de banda-C e de banda-Ku (36 repetidores de banda-Ku e 20 repetidores de banda-C), totalizando 32 para garantir a continuidade das missões do satélite Eutelsat-10A, cuja vida operacional deverá terminar em 2023.

O Eutelsat-10B estará operacional na órbita geossíncrona a 10.° de longitude Este, uma posição orbital de proporciona uma cobertura única desde o continente Americano até à Ásia.

O estágio B1049

Para esta missão a SpaceX utilizou o foguetão Falcon 9-186 (B1049.11), isto é, o seu primeiro estágio B1049 na sua 11.ª e, neste caso, última missão.

Este primeiro estágio foi utilizado pela primeira vez a 10 de Setembro de 2018 quando às 0328UTC foi lançado a partir do Complexo de Lançamento SLC-40 do Cabo Canaveral AFS para colocar em órbita o satélite de comunicações Telstar-18 Vantage (APStar-5C). Na sua primeira missão o B1049 foi recuperado na plataforma flutuante Of Course I Still Love You (OCISLY) estacionada no Oceano Atlântico. A sua segunda missão teria lugar às 1531:33,492UTC do dia 11 de Janeiro de 2019 quando foi lançado desde o Complexo de Lançamento SLC-4E da Base Aérea de Vandenberg, Califórnia, para colocar em órbita dez satélites Iridium-NEXT, sendo recuperado na plataforma Just Read The Instructions (JRTI) no Oceano Pacífico. A sua terceira missão teria lugar a partir do Complexo de Lançamento SLC-40 às 0230UTC do dia 24 de Maio para colocar em órbita os primeiros sessenta satélites Starlink experimentais, Starlink-1 (v0.9 L1), sendo de novo recuperado na plataforma OCISLY.

A sua quarta missão ocorreu às 0219:21UTC do dia 7 de Janeiro de 2020 quando foi lançado novamente a partir do Complexo de Lançamento SLC-40 para colocar em órbita sessenta satélites Starlink, Starlink-3 (v1.0 – L2). Na sua quarta missão o B1049 foi recuperado na plataforma OCISLY no Atlântico. Lançado às 0125:33UTC do dia 4 de Junho, o B1049 colocaria em órbita mais sessenta satélites Starlink, Starlink-8 (v1.0 – L7), na sua quinta missão, sendo recuperado na plataforma JRTI no Oceano Atlântico. A sua sexta missão teria lugar às 1431:16,555UTC do dia 18 de Agosto a partir do SLC-40 para colocar em órbita 58 satélites Starlink, Starlink-11 (v1.0 – L10), juntamente com os satélites SkySat-19, SkySat-20 e SkySat-21, sendo recuperado na plataforma OCISLY.

A sua sétima missão teve lugar a 25 de Novembro. Lançado às 0213:12UTC, o B1049 colocaria em órbita sessenta satélites Starlink, Starlink-16 (v1.0 L15), e seria recuperado na plataforma OCISLY. Na sua oitava missão, o estágio B1049 foi lançado às 0824:54UTC do dia 4 de Março colocando em órbita 60 satélites Starlink na missão Starlink F18. A missão Starlink F26 marcou a 9.ª missão do estágio B1049, sendo lançado às 1901:07UTC do dia 4 de Maio e recuperado na plataforma flutuante OCISLY. A 10.ª missão teria lugar a 14 de Setembro de 2021, sendo lançado desdo o Complexo de Lançamento SLC-4E da Base das Forças Espaciais de Vanbenberg, seria recuperado na plataforma OCISLY depois de colocar em órbita mais 51 satélites Starlink. 

Lançamento

A cerca de dez horas do lançamento procede-se à activação eléctrica do foguetão Falcon-9. Tanto o lançador como a sua carga são submetidos a uma série de verificações testes antes do início do abastecimento do querosene RP-1. O Director de Voo consulta os controladores a T-38m, determinando assim se tudo está pronto para o início do abastecimento do lançador. O processo de abastecimento de RP-1 inicia-se a T-35m no primeiro estagio, seguindo-se o início do abastecimento do oxigénio líquido (LOX) na mesma altura. O abastecimento de LOX ao segundo estagio inicia-se a T-16m.

A fase terminal da contagem decrescente inicia-se com os motores a serem condicionados termicamente para o lançamento a T-7m. A T-1m é enviado um comando para o computador de voo para iniciar as verificações pré-lançamento e o sistema de supressão sónica é activado na plataforma de lançamento que é inundada por milhões de litros de água. Por esta altura os tanques de propelente também são pressurizados. A T-45s o Director de Lançamento da SpaceX verifica se todos os parâmetros estão prontos para a missão, sendo também verificado que o espaço aéreo está pronto para o lançamento. A sequência de ignição é iniciada a T-3s. A T=0s o foguetão abandona a plataforma.

Abandonando a plataforma de lançamento, o Falcon-9 inicia uma série de manobras para se colocar na trajectória de voo correcta. A fase MaxQ, de máxima pressão dinâmica, é atingida a T+1m 16s. É nesta altura que o lançador atinge o ponto mais elevado de ‘stress’ mecânico na sua estrutura.

O final da queima do primeiro estágio (MECO – Main Engine Cut-Off) ocorre a T+2m 43s, dando-se quatro segundos depois a separação entre o primeiro e o segundo estágio, com este a entrar em ignição pela primeira vez a T+2m 54s. A ejecção das duas metades da carenagem de protecção ocorre a T+3m 36s.

O final da primeira queima do segundo estágio ocorre a T+8m 5s, atingindo-se uma órbita de parqueamento a partir da qual tem lugar a segunda queima que ocorre entre T+26m 18s e T+27m 27s, com a separação do satélite Galaxy-32 a ocorrer a T+35m 28s.

O foguetão Falcon-9

Baptizado em nome da nave Millenium Falcon da saga cinematográfica “Guerra das Estrelas”, o foguetão Falcon-9 v1.1 é um lançador a dois estágios projectado e fabricado pela SpaceX para o transporte seguro e fiável de satélites e do veículo Dragon para a órbita terrestre. Sendo o primeiro foguetão completamente desenvolvido no Século XXI, este lançador foi projectado desde o início para ter a máxima fiabilidade. A sua simples configuração de dois estágios minimiza o número de eventos de separação (staging) e com nove motores no primeiro estágio, pode completar a sua missão em segurança mesmo na possibilidade de perda de um motor.

O Falcon-9 fez história em 2012 quando colocou a cápsula Dragon na órbita correcta para uma manobra de encontro com a estação espacial internacional, fazendo da SpaceX a primeira companhia comercial a visitar a ISS. Desde então, a SpaceX realizou múltiplas missões para a ISS transportando e recolhendo carga para a NASA. O Falcon-9, bem como a cápsula Dragon, foram desenhados na base do desenvolvimento de um sistema de transporte de astronautas para o espaço e num acordo com a NASA, a SpaceX está activamente a trabalhar para atingir esse objectivo.

O foguetão Falcon-9 Upgrade, ou Falcon-9 FT, (a seguir designado simplesmente como ‘Falcon-9’) representa a mais recente evolução deste lançador. De forma geral o Falcon-9 tem 68,4 metros de comprimento, 3,7 metros de diâmetro e uma massa de 541.300 kg. O veículo é capaz de colocar uma carga de 13.150 kg numa órbita terrestre baixa ou 4.850 kg numa órbita de transferência geossíncrona.

O primeiro estágio do Falcon-9 está equipado com nove motores Merlin (Merlin-1D) e tanque de liga de alumínio e lítio que contêm oxigénio líquido e querosene RP-1. Após a ignição, um sistema de segurança fixa o veículo na plataforma de lançamento e garante que todos os motores são verificados como estando na força máxima antes de libertar o foguetão para o seu voo. Então, com uma força superior a cinco aviões Boeing 747 em potência máxima, os motores Merlin lançam o foguetão para o espaço. Ao contrário dos aviões, a força de um foguetão vai aumentando com a altitude – o Falcon-9 gera 6.806 kN ao nível do mar mas atinge 7.426 kN no vácuo espacial. Os motores do primeiro estágio vão sendo aumentados em potência perto do final da queima do estágio para assim limitar a aceleração do veículo à medida que a massa do lançador vai diminuindo com a queima do combustível. O tempo total de queima do primeiro estágio é de 162 segundos.

Com os seus nove motores agrupados juntos na configuração ‘octaweb’, o Falcon-9 pode aguentar a falha de até dois motores durante o lançamento e mesmo assim conseguir atingir a órbita terrestre com sucesso. O Falcon-9 é o único lançador na sua classe com esta característica chave.

O motor Merlin foi desenvolvido internamente pela SpaceX mas vai encontrar as suas raízes aos motores das missões Apollo, nomeadamente o sistema de injecção baseado no motor do módulo lunar. O propolente é alimentado através de uma única conduta, com uma turbo-bomba de dupla pá que opera num ciclo de gerador a gás. A turbo-bomba também fornece o querosene a alta pressão para os actuadores hidráulicos, que depois recicla para a entrada a baixa pressão. Isto elimina a necessidade de um sistema hidráulico separado e significa que não é possível ocorrer uma falha no controlo de vector de força por falta de fluido hidráulico. Uma terceira utilização da turbo-bomba é o fornecimento de controlo de rotação ao actuar no escape da turbina de exaustão (no segundo estágio). Combinando-se estas características num só dispositivo aumenta-se assim de forma significativa o nível de fiabilidade do sistema.

O motor é capaz de desenvolver uma força de 654 kN ao nível do mar, 716 kN no vácuo, com um impulso específico de 282 segundos (nível do mar) e 311 segundos (vácuo).

A secção interestágio é uma estrutura compósita que liga o primeiro e o segundo estágio e alberga os sistemas de libertação e separação. O Falcon-9 utiliza um sistema de separação totalmente pneumático para uma separação de baixo impacto e altamente fiável que pode ser testado no solo, ao contrário dos sistemas pirotécnicos utilizados na maior parte dos lançadores.

O segundo estágio é propulsionado por um único motor Merlin de vácuo e coloca a carga a transportar na órbita desejada. O motor do segundo estágio entra em ignição poucos segundos após a separação entre o segundo e o primeiro estágio, e pode ser reiniciado várias vezes para colocar múltiplas cargas em diferentes órbitas. Para máxima fiabilidade, o segundo estágio está equipado com sistemas de ignição redundantes. Tal como o primeiro estágio, o segundo estágio é feito a partir de uma liga de alumínio e lítio.

O motor Merlin de vácuo (Merlin-1D de vácuo) desenvolve uma força de 934 kN e o seu tempo de queima é de 397 segundos.

A carenagem compósita é utilizada para proteger a carga durante a passagem do Falcon-9 pelas camadas mais densas da atmosfera. Quando a missão do Falcon-9 é o lançamento do veículo de carga Dragon, a carenagem não é utilizada pois a cápsula possui o seu próprio sistema de protecção.

A carenagem tem 13,1 metros de comprimento e 5,2 metros de diâmetro. Fabricada em fibra de carbono, separa-se em duas metades utilizando um sistema de separação de actuadores pneumáticos semelhantes aos que são utilizados para a separação entre o primeiro e o segundo estágio.

A sequência de lançamento para o Falcon-9 é um processo de precisão ditada pela janela de lançamento tendo em conta a posição orbital a ser ocupada pela carga a bordo. Se a janela de lançamento é perdida, a missão é então adiada para a próxima janela de lançamento disponível.

Cerca de quatro horas antes do lançamento, inicia-se o processo de abastecimento – primeiro oxigénio líquido seguindo-se o querosene altamente refinado (RP-1). O vapor que se observa a sair do lançador durante a contagem decrescente é na realidade oxigénio a ser libertado dos tanques, sendo esta a razão pela qual o abastecimento de oxigénio líquido se mantém até quase ao final da contagem decrescente.

Lançamento Veículo 1.º estágio Local Lançamento Data Hora (UTC) Carga Recuperação
2022-119 177 B1073.4 CCSFS, SLC-40 24/Set/22 23:32:10 Starlink G4-35 ASOG (Oc. Atlântico)
2022-124 178 B1077.1 KSC, LC-39A 05/Out/22 16:00:57 Endurance JRTI (Oc. Atlântico)
2022-125 179 B1071.5 VSFB, SLC-3E 05/Out/22 23:10:30 Starlink G4-29 OCISLY (Oc. Pacífico)
2022-128 180 B1060.14 CCSFS, SLC-40 08/Out/22 23:05:00 Galaxy-33 (Galaxy-15R) Galaxy-34 (Galaxy-12R) ASOG (Oc. Atlântico) 
2022-134 181 B1069.3 CCSFS, SLC-40 15/Out/22 05:22 Hotbird-13F JRTI (Oc. Atlântico)
2022-136 182 B1062.10 CCSFS, SLC-40 20/Out/22 14:50:40 Starlink G4-36 ASOG (Oc. Atlântico) 
2022-141 183 B1063.8 VSFB, SLC-4E 28/Out/22 01:14:10 Starlink G4-31 OCISLY (Oc. Pacífico)
2022-146 184 B1067.7 CCSFS, SLC-40 03/Nov/22 05:22 Hotbird-13G JRTI (Oc. Atlântico)
2022-153 185 B1051.14 CCSFS, SLC-40 12/Nov/22 16:06 Galaxy-31 Galaxy-32
2022-157 186 B1049.11 CCSFS, SLC-40 23/Nov/22 02:57 Eutelsat-10B

Dados estatísticos e próximos lançamentos

– Lançamento orbital: 6325

– Lançamento orbital EUA: 1849 (7,83%)

– Lançamento orbital Cabo Canaveral SFS: 841 (2,82% – 35,96%)

Os próximos lançamentos orbitais previstos são (hora UTC):

6326 – 25 Nov (0147:??) – Vega-C (VV22) – CSG Kourou, ZLV – Pleiades Neo 5, Pleiades Neo 6

6327 – 25 Nov (0720:??) – Chang Zheng-11 (Y12) – Xichang, LC4 – Shenjian 2013

6328 – 26 Nov (0626:??) – PSLV-XL (PSLV-C53) – Satish Dawan SHAR, FLP – EOS-06 (Oceansat-3), INS-2B (BhutanSat), Pixxel-TD 1 (Anand), Astrocast-0301, Astrocast-0302, Astrocast-0303, Astrocast-0304, Thybolt-1, Thybolt-2

6329 – 26 Nov (1920:??) – Falcon 9-187 (1076.1) – CE Kennedy, LC-39A – Dragon SpX-26 (CRS-26), ELaNa-49 (TJREVERB, MARIO, petitSat, SPORT), LORIS, ORCASat, DANTESAT, NUTSAT

6330 – 27 Nov (1400:??) – 14A14-1A Soyuz-2.1b/Fregat (N15000-047/112-13) – GIK-1 Plesetsk, LC43 PU-? – Glonass-M n.º 61L



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