Soyuz-11 – Triunfo e tragédia do programa espacial soviético

O plano inicial para a ocupação da futura estação espacial Salyut-1, designada anteriormente DOS-1, previa a realização de duas missões espaciais tripuladas. A primeira dessas missões deveria ter uma duração de 30 dias enquanto que a segunda missão não deveria exceder os 45 dias. No segundo trimestre de 1970 foi formado um grupo de treino de cosmonautas dos quais foram seleccionados 12 elementos que formaram 4 tripulações (as duas primeiras tripulações eram as principais e as restantes eram suplentes):

Tripulação 1 – Vladimir Alexandrovich Shatalov (Comandante); Alexei Stanislavovich Yeliseyev (Engenheiro de Voo); Nikolai Nikolaievich Rukavishnikov (Engenheiro de Testes).


Tripulação 2 – Georgi Stepanovich Shonin; Valeri Nikolaievich Kubasov; Pyotr Ivanovich Kolodin.

Tripulação 3 – Boris Valentinovich Volynov; Konstantin Petrovich Feoktistov; Viktor Ivanovich Patsayev.

Tripulação 4 – Yevgeni Vasilievich Khrunov; Vladislav Nikolaievich Volkov; Vitali Ivanovich Sevastyanov.

Pouco após a nomeação destas tripulações e devido a vários motivos, verificou-se a remoção de Konstantin P. Feoktistov, Boris V. Volynov e Yevgeni V. Khrunov. Boris Volynov tinha ascendência judia e por ordem do Comité Central do Partido Comunista da União Soviética, foi retirado do grupo de treino para um voo espacial (posteriormente Boris Volynov seria readmitido no grupo de cosmonautas e participaria na missão espacial militar Soyuz-21 lançada a 6 de Julho de 1976, juntamente com o cosmonauta Vitali Mikhailovich Zholobov. Volynov e Zholobov seriam os primeiros cosmonauta a ocuparem a estação espacial Salyut-5.). Por outro lado, Konstantin Feoktistov acabava de passar por um processo de divórcio e consequentemente não reflectia a imagem perfeita do heróico cosmonauta soviético. Finalmente, Yevgeni Khrunov estivera envolvido num atropelamento no qual não prestara assistência posterior à vítima e como tal ainda se encontrava «de castigo».

Ao lado: aspecto do interior da estação espacial DOS-1 Salyut-1. Imagem: Arquivo fotográfico do autor

Em resultado da saída destes três cosmonautas, Vladimir A. Shatalov foi nomeado como comandante da terceira tripulação, Georgi S. Shonin foi promovido a comandante da primeira tripulação e Alexei Arkhipovich Leonov foi nomeado como comandante da segunda tripulação. As nomeações ficaram então da seguinte maneira:

Tripulação 1 – Georgi Stepanovich Shonin; Alexei Stanislavovich Yeliseyev; Nikolai Nikolaievich Rukavishnikov.

Tripulação 2 – Alexei Arkhipovich Leonov; Valeri Nikolaievich Kubasov; Pyotr Ivanovich Kolodin.

Tripulação 3 – Vladimir Alexandrovich Shatalov; Vladislav Nikolaievich Volkov; Viktor Ivanovich Patsayev.

Tripulação 4 – Georgi Timofeyevich Dobrovolsky; Vitali Ivanovich Sevastyanov; Anatoli Fyodorovich Voronov.

O treino das três primeiras tripulações teve início em Setembro de 1970, enquanto que a quarta tripulação só iniciou os treinos em Janeiro de 1971. De salientar que a quarta tripulação iniciava o seu treino a semanas da data planeada para o primeiro lançamento.

A 12 de Fevereiro de 1971 Nikolai Kamanin, oficial soviético responsável pelo treino dos cosmonautas, levou a cabo uma revisão das tripulações que haviam sido seleccionadas para as primeiras missões à estação espacial Salyut-1. Kamanin deparava-se com um problema na composição final das tripulações devido a questões médicas relacionadas com o cosmonauta Georgi Stepanovich Shonin. Poucos dias antes Shonin não comparecera no Centro de Treinos de Cosmonautas Yuri Gagarin, situação que intrigou Kamanin que posteriormente viria a descobrir que o cosmonauta estava a ser tratado a uma doença não especificada. A ausência de Shonin não seria tão grave não fosse o facto de Vasili Mishin, engenheiro russo responsável pelo programa espacial tripulado, também tomar conhecimento da situação. De imediato Mishin exigiu a Kamanin que Shonin fosse retirado do comando de uma das tripulações e nem mesmo os insistentes pedidos do oficial soviético não impediram que o cosmonauta fosse «castigado».

Naquela altura Mishin exigiu que a primeira tripulação à Salyut fosse constituída somente por cosmonautas civis. A luta entre os militares e uma certa ala do programa tripulado soviético pelos lugares nas missões espaciais, foi um factor que sempre marcou a nomeação das diversas tripulações. Posteriormente Mishin desistiu da sua ideia e o cosmonauta Shonin acabou por ser enviado para o Hospital Burdenko onde foi tratado a uma infecção e a problemas psicológicos. Seria o fim da carreira de cosmonauta para Shonin que nunca mais voltaria ao espaço apesar de aparentemente ter treinado para uma missão espacial em finais dos anos 70.

Sem a possibilidade de utilizar Shonin, que era o único cosmonauta com experiência de encontros e acoplagens em órbita terrestre, Kamanin teve de alterar as tripulações. As primeiras tripulações ficaram assim nomeadas (tripulação principal e suplente, respectivamente):

Tripulação 1 – Vladimir Alexandrovich Shatalov; Alexei Stanislavovich Yeliseyev; Nikolai Nikolaievich Rukavishnikov.

Tripulação 2 – Alexei Arkhipovich Leonov; Valeri Nikolaievich Kubasov; Pyotr Ivanovich Kolodin.

As outras tripulações foram afectadas por estas alterações que só viriam a ter efeito numa fase mais avançada do programa pois não era esperado que qualquer uma deles viesse a levar a cabo um voo espacial. A terceira tripulação serviria de equipa de apoio às duas primeiras tripulações:

Tripulação 3 – Georgi Timofeyevich Dobrovolsky; Vladislav Nikolaievich Volkov; Viktor Ivanovich Patsayev.

Tripulação 4 – Alexei Alexandrovich Gubarev; Vitali Ivanovich Sevastyanov; Anatoli Fyodorovich Voronov.

De salientar que Dobrovolsky, agora comandante da terceira tripulação, só começara o seu treino de cosmonauta em 1971.

Georgy Timofeyevich Dobrovolsky

Гео́ргий Тимофе́евич Доброво́льский

(N. 1 / Jun. / 1928 – F. 30 / Jun / 1971)

Georgy Timofeyevich Dobrovolsky nasceu a 23 de Novembro de 1935 em Moscovo, Rússia. O seu pai era desenhador no bureau dirigido por Vladimir Myasishchev, construtor do bombardeiro Bison, e Vladislav cresceu perto do aeródromo de Tushino. Como a sua mãe também trabalhava numa fábrica de aviões, e um seu tio era piloto e herói de guerra, naturalmente Volkov cria tornar-se piloto. Ingressou num clube de aviação local e assistiu a loções de aviação. Porém a sua família sugeriu que em vez de ingressar na Força Aérea deveria estudar engenharia aeronáutica. Volkov seguiu a sugestão e ingressou no Instituto de Aviação de Moscovo, graduando-se em 1959.

Após a graduação Volkov foi trabalhar para o bureau de Korolev, tornando-se membro de um grupo de jovens engenheiros com a assistência Konstantin Feoktistov, desenhador das cápsulas Vostok e Voskhod. Em Maio de 1964 Volkov e outros tiveram que o seu assistente, Feoktistov, iria viajar no espaço abordo da primeira Voskhod. Quando o Desenhador-Chefe Sergei Korolev anunciou que engenheiros do bureau seriam incluídos em futuras tripulações, ele foi inundado de candidaturas, uma das quais de Volkov. Dois anos mais tarde, em Maio de 1966, Volkov foi um dos 8 engenheiros civis admitidos para a equipa de cosmonautas do bureau.

Durante o seu treino para cosmonauta Volkov tornou-se num especialista em saltos de pára-quedas e qualificou-se como piloto de aviões a jacto. Ele não foi um dos primeiros engenheiros a ser seleccionado para uma tripulação Soyuz, algo que o frustrou bastante, mas sendo paciente foi-lhe atribuído uma tripulação em 1968. O seu primeiro voo espacial teve lugar em Outubro de 1968 a bordo da Soyuz-7, levando a cabo uma missão tripla com a Soyuz-6 e Soyuz-8.

Para além dos seus dois voos espaciais, Volkov serviu como engenheiro de voo suplente para a Soyuz-10.

Os preparativos para o início do novo programa iam-se desenvolvendo com cada vez mais rapidez, o que levou ao aparecimento de vários problemas e erros na preparação dos veículos e instrumentação. De facto, no início de Março de 1971, fora reconhecido que existiam vários atrasos nos testes de vibração da estação espacial que seria colocada em órbita, enquanto que graves maus funcionamentos no desenvolvimento do sistema de acoplagem Igla que seria utilizado nas cápsulas Soyuz, atrasavam mais o programa. Somente um dos quatro sistemas Igla construídos apresentava resultados minimamente satisfatórios. Existiam também problemas no desenvolvimento de um método de armazenamento dos pára-quedas na cápsula Soyuz e no teste do sistema de apoio à vida da própria estação espacial.

No início do mês de Março de 1971 a estação espacial havia sido transportada para o Cosmódromo NIIP-5 Baikonur, nas estepes do Cazaquistão, onde se iniciaria um período de teste de 40 dias. O trabalho dos engenheiros em Baikonur era feito de uma maneira muito precária e por vezes com instrumentação não adequada ao trabalho em causa. Em finais de Março muitos instrumentos haviam sido retirados da estação e haviam sido reportados erros durante a montagem de vários sistemas. Todos estes atrasos levaram a que o lançamento da estação fosse adiado para o dia 15 de Abril de 1971.

Originalmente a primeira estação espacial soviética seria baptizada com a designação Zarya (“Amanhecer” em russo), dando um significado especial para os novos objectivos para os quais o programa espacial tripulado soviético fora direccionado. Porém, talvez horas antes do lançamento, surgiram alguns problemas relacionados com o nome da estação. A China dera um nome semelhante ao seu primeiro satélite e ter a novíssima estação espacial soviética com um nome muito parecido com o primeiro satélite chinês não deveria cair muito bem nas graças do Politburo. Foi então decidido por Vasili Mishin, que havia já sugerido a primeira designação, baptizar a nova estação espacial com a designação de Salyut (“Saudação” em russo) em honra do 10.º aniversário do histórico voo espacial de Yuri Gagarin a bordo da Vostok. Curiosamente, esta alteração foi feita tão perto da data de lançamento da estação espacial que foi impossível alterar o nome da estação inscrito na sua fuselagem. Por esta razão, em algumas fotografias é possível ler-se ‘ЭАРЯ’.

Soyuz-10

Os preparativos das tripulações estavam quase completos em Março de 1971 apesar de nesta data ainda não se ter esclarecida a que questão relativa à duração das missões. A estação deveria ser colocada em órbita entre os dias 15 e 18 de Abril, enquanto que a primeira tripulação, comandada por Vladimir Shatalov, seria lançada entre 18 e 20 de Abril. Os cosmonautas voaram para o Cosmódromo NIIP-5 Baikonur no dia 20 de Março para poderem levar a cabo sessões de treino. Um exame final levado a cabo a 16 de Março revelou que todas as tripulações estavam prontas para a missão.

Enquanto que permaneceram no cosmódromo, as tripulações foram testemunhas de mais um fracasso no teste do sistema Igla. Após várias sessões de treino, os cosmonautas regressaram à Cidade das Estrelas e certamente que nas suas mentes estavam os pensamentos relacionados com os consecutivos erros na operação do Igla. Os cosmonautas regressariam a Baikonur no dia 6 de Abril e no dia 9 de Abril a Comissão Estatal decidia que o lançamento do veículo DOS-121 teria lugar a 19 de Abril de 1971 (a estação espacial Salyut-1, tal como todos os veículos soviéticos e posteriormente russos, têm várias designações. Assim a Salyut-1 é também conhecida pela designação DOS-121, 17K-121 e 11F715 nº 121.).

Às 0140UTC do dia 19 de Abril de 1971 um foguetão 8K82K Proton-K (34922425401) era lançado desde a Plataforma PU-24 do Complexo de Lançamentos LC81 do Cosmódromo NIIP-5 Baikonur, que colocaria em órbita a estação espacial Salyut-1 (05160 1971-032A). A Salyut-1 podia acomodar um máximo de 3 cosmonautas, tendo um comprimento de 13,07 metros e um diâmetro máximo de 4,15 metros. No total tinha um peso de 18.210 kg, dos quais 2.000 kg eram combustível. A estação estava equipada com um porto de acoplagem e com dois painéis solares com uma envergadura de 9,8 metros.

Após se separar do último estágio do foguetão lançador 8K82K Proton-K, a estação ficou colocada numa órbita com um apogeu a 211 km de altitude, um perigeu a 177 km de altitude e uma inclinação orbital de 51,6.º em relação ao equador terrestre. Logo a seguir, e utilizando os seus próprios motores, a estação espacial elevou a sua órbita ficando com um apogeu a 210 km de altitude e um perigeu a 200 km de altitude, mantendo a inclinação orbital em preparação para a chegada da missão espacial tripulada Soyuz-10.

Lançamento da estação espacial Salyut-1 a partir da plataforma PU-24 do complexo LC81 do Cosmódromo NIIP-5 Baikonur a 19 de Abril de 1971. Imagem: Arquivo fotográfico do autor.

Logo após a primeira órbita começaram a surgir problemas com a Salyut-1 quando os controladores em terra verificaram que a cobertura do telescópio que se encontrava no compartimento científico, não se havia separado. Este problema poderia colocar em questão o valor científico da permanência de qualquer tripulação a bordo da estação. Outros problemas surgiram no segundo dia de voo quando duas unidades de ventilação do sistema de suporte à vida revelaram que não funcionavam de maneira correcta.

A 20 de Abril de 1971 a tripulação da Soyuz-10 é apresentada ao mundo e é revelado que o seu lançamento está previsto para as 0020UTC do dia 22 de Abril. A contagem decrescente é levada a cabo com um estado de mau tempo persistente no cosmódromo, mas tudo parece correr bem até 60 segundos da ignição quando um mastro da plataforma de lançamento não se separa correctamente do veículo lançador. O lançamento é adiado para desagrado de muitos, mas o perigo de que o sistema de escape de emergência poder ser activado nas circunstâncias a que o lançamento seria levado a cabo pesou mais nas considerações dos controladores. A 14 de Dezembro de 1966 o lançamento do primeiro veículo Soyuz tinha acabado em desastre quando o sistema de emergência do foguetão 11A511 Soyuz (U15000-001) lançado desde a Plataforma 17P32-6 (LC31 PU-6) fora activado devido a um problema semelhante.

Com o lançamento adiado por 24 horas foi decidido deixar o foguetão lançador 11A511 Soyuz (Х15000-25) abastecido na Plataforma LC1/1. A 21 de Abril de 1971 foi levada a cabo uma segunda tentativa de lançamento que acabou por ser assistir ao mesmo problema do dia anterior. Porém desta vez a contagem decrescente prosseguiu com Vasili Mishin a assumir o controlo das operações.

Vladislav Nikolayevich Volkov

Владислав Николаевич Волков

(N. 23 / Nov. / 1925 – F. 30 / Jun / 1971)

Vladislav Nikolayevich Volkov nasceu a 1 de Junho de 1928 na cidade de Odessa, Ucrânia. Durante a ocupação alemã foi preso pelos nazis por posse ilegal de armas de fogo e sentenciado a 25 anos de trabalhos forçados, tendo no entanto fugido da cadeia.

Quando novo Dobrovolsky sonhava em se tornar um marinheiro, mas no entanto não foi seleccionado para uma escola naval, tendo ingressado na força aérea e frequentado a Escola Superior Chuguyev da Força Aérea, tornando-se um aviador naval. Primeiramente serviu no 24.º Exército do Ar na Alemanha Oriental, tendo entre Outubro de 1956 e Janeiro de 1963 servido no 30.º Exército do Ar em Valga, Estónia, tornando-se Comandante de Esquadrão e oficial político para o 43.º Regimento de Bombardeamento Aéreo em 1961.

Entre Setembro de 1957 e Julho de 1961 obteve um curso por correspondência na Academia da Força Aérea da Bandeira Vermelha.

Sendo um dos 15 cosmonautas seleccionados na equipa militar de cosmonautas em 11 de Janeiro de 1963, Dobrovolsky era muito popular no seu grupo por fazer o papal de Avô Inverno nas celebrações do ano novo. A partir de 1965 trabalhou no grupo de treino Almaz seguido por 5 anos (entre 1966 e 1971) no programa lunar tripulado. Entre 1967 e 1969 serviu como cosmonauta comunicador para várias missões Soyuz e como Comandante Executivo da equipa de cosmonautas para os assuntos políticos. Foi nomeado para o programa Salyut em Janeiro de 1971.

Um navio da Academia de Ciências Soviéticas foi baptizado em sua honra em 1978.

O lançamento da cápsula Soyuz 7K-T nº 31, baptizada com a designação Soyuz-10 após entrar em órbita terrestre, tem lugar às 2354:06UTC do dia 23 de Abril de 1971. Utilizando o código de chamada Granit, a Soyuz-10 é colocada numa órbita preliminar e inicia a perseguição à Salyut-1. No dia seguinte a cápsula encontra-se numa órbita com um apogeu a 258 km de altitude, um perigeu a 209 km de altitude e uma inclinação orbital de 51,6.º. As manobras orbitais eram realizadas com muita dificuldade devido a problemas com o computador de bordo da Soyuz-10 e devido à falta de tempo na preparação da segunda ignição para a correcção orbital. Por outro lado, já se havia verificado que o sistema de orientação iónica da cápsula estava com os seus dispositivos ópticos contaminados e por isso inoperante. No entanto a acoplagem com a Salyut-1 tem lugar às 0147UTC do dia 24 de Abril de 1971. As comemorações não duram muito tempo pois logo de seguida verifica-se que a acoplagem não é bem sucedida e os cosmonautas não conseguem entrar na estação. Uma luz de indicação de acoplagem não se acendera no painel de controlo da Soyuz-10 e Shatalov reportava-o para o controlo da missão. Na realidade, existia ainda uma separação de 0,09 metros entre a Soyuz-10 e a Salyut-1. Foi decidido eliminar esta separação accionando os motores da Soyuz-10 mas a manobra acaba por não ter sucesso.

Após quatro órbitas em torno na Terra e após analisarem o problema, o controlo da missão decide separar a Soyuz-10 da Salyut-1 e tentar uma segunda acoplagem. A separação dá-se às 0418UTC após uma extrema dificuldade em o conseguir.

Esta situação poderia ter-se tornado numa situação catastrófica para o programa espacial soviético. A incapacidade dos dois veículos se separarem poderia levar à perda da Salyut-1 e talvez mesmo da tripulação da Soyuz-10. Perante a situação o controlo da missão elaborou dois planos de contingência que passavam ou pelo desmantelamento do sistema de acoplagem separando-o da Soyuz, ou deixar ficar o módulo orbital da Soyuz acoplado à estação espacial. Qualquer destas duas soluções significaria o fim da utilização da Salyut. A situação era complicada pelo facto de na Soyuz-10 existir uma quantidade limitada de oxigénio a bordo que daria para um máximo de 40 horas.

Tendo em conta os níveis de combustível a bordo e da quantidade de ar na cabina, o controlo da missão optou por fazer regressar a Soyuz-10 à Terra. A cápsula executou algumas manobras em torno da estação orbital para obter imagens do sistema de acoplagem da Salyut que poderiam auxiliar os engenheiros a determinar as causas do problema que impossibilitou a acoplagem entre os dois veículos. Às 2259UTC a Soyuz-10 acciona os seus motores de manobra e a aterragem tem lugar às 2340UTC a 120 km NE de Karaganda.

A comissão de inquérito que investigou as causas da impossibilidade da acoplagem entre a Salyut-1 e a Soyuz-10 acabou por determinar que um excesso de força no mecanismo de acoplagem (entre 160 kg e 200 kg) o teria danificado, impedindo a acoplagem. Este mecanismo estava desenhado para suportar até um máximo de 80 kg. O excesso de força no mecanismo foi originado pela impossibilidade de se dissiparem os movimentos da Soyuz-10 após a acoplagem.

Após os problemas com a Soyuz-10 foi decidido reforçar o mecanismo de acoplagem para assim poder suportar forças mais fortes durante o processo de acoplagem, além de introduzir a possibilidade da tripulação poder controlar os dispositivos do sistema de acoplagem.

Planeando o futuro da Salyut-1

A primeira missão à Salyut-1 fracassava, mas a União Soviética anunciava que a tripulação da missão nunca teve o objectivo de entrar na estação orbital. Hoje sabe-se que isso não é verdade e que Shatalov, Yeliseyev e Rukavishnikov planeavam permanecer quase um mês em órbita. Após o regresso da Soyuz-10 a órbita da Salyut-1 é elevada para um apogeu de 271 km de altitude e um perigeu de 252 km de altitude, aguardando a próxima missão. Nas próximas semanas, e por influência do atrito com a ténue atmosfera terrestre naquela altitude, a órbita da estação desce para um apogeu de 204 km e um perigeu de 198 km.

Com o intuito de tirar o máximo partido da estação espacial em órbita é apresentado por Vasili Mishin um plano que inclui duas missões à Salyut-1. Essas missões seriam lançadas a 4 de Junho de 1971 e 18 de Julho de 1971, podendo-se assim completar os objectivos do programa. Mishin propõe também que a tripulação da próxima missão espacial seja reduzida para dois elementos envergando fatos espaciais para poderem levar a cabo uma actividade extraveícular para inspeccionarem o mecanismo de acoplagem da Salyut e para finalmente removerem a cobertura do módulo científico da estação que impedia a utilização do telescópio OST-1. Estas propostas de Mishin foram imediatamente recusadas por Nikolai Kamanin que referia o facto de os cosmonautas não possuírem qualquer treino para realizarem uma actividade extraveícular e que além do mais o fabricante dos fatos espaciais não os conseguiria preparar a tempo para a missão.

A Salyut-1 observada a partir da Soyuz-10 enquanto esta executa algumas manobras em torno da estação após a impossibilidade de acoplar. Imagem: Corporação RSC Energiya

Os argumentos entre Mishin e Kamanin duraram pouco e Mishin acabou por desistir das suas pretensões relativamente à realização das actividades extraveículares. No entanto, e num toque de ironia muito comum no programa espacial soviético, os acontecimentos que se seguiriam provariam que muitas decisões acabam por ter consequências em áreas nas quais aparentemente não teria qualquer relação.

Em Maio de 1971 surge uma nova discussão desta vez relativa à duração das posteriores missões a serem lançadas para a Salyut-1. Se por um lado Vasili Mishin e Kerim Kerimov pretendiam levar a cabo duas missões com uma duração de 30 dias em órbita, Kamanin argumentava que os víveres e mantimentos a bordo da estação estariam exaustos antes do final da segunda missão. Foi decidido que cada tripulação teria como objectivo acoplar coma estação espacial e reactivar os seus sistemas, decidindo-se posteriormente qual a duração da missão a bordo.

Viktor Ivanovich Patsayev

Виктор Иванович Пацаев

(N. 19 / Jun. / 1933 – F. 30 / Jun / 1971)

Viktor Ivanovich Patsayev nasceu a 19 de Junho de 1933 na cidade de Aktyubinsk, Cazaquistão. O seu pai foi morto em Outubro de 1941 durante a defesa de Moscovo. Viktor Patsayev cresceu com a sua mãe e a sua irmã em Aktyubinsk e, depois de 1946, Kaliningrado.

Com um grande interesse em ciência e espaço, Patsayev ingressou no Instituto Industrial de Penza, graduando-se em 1955. Nos anos seguintes trabalhou no Observatório Central Aerológico realizando estudos atmosféricos. Após o lançamento do Sputnik-1, procurou trabalho no OKB-1

Como engenheiro no bureau de Korolev, Patsayev tornou-se amigo próximo com o futuro cosmonauta Vladislav Volkov. Ambos eram membros de um clube de aviação e ambos eram membros das equipas de recolha para os voos espaciais. Volkov foi admitido na equipa de cosmonautas em 1966, mas Patsayev teve de aguardar mais dois anos para finalmente ingressar na equipa em Maio de 1968. Patsayev foi nomeado para uma tripulação Soyuz tendo como comandante o cosmonauta Lev Vorobyov após ingressar no grupo Salyut na Primavera de 1970.

Entretanto prosseguiam os preparativos para o próximo voo e mais uma vez um grande número de falhas haviam sido detectadas no sistema de acoplagem. Porém, a Comissão Estatal certificou o veículo para o voo que possuía agora algumas modificações no seu sistema de acoplagem e capacidades autónomas melhoradas.

Soyuz-11

O fracasso da Soyuz-10 em não conseguir realizar a sua missão levou a que a tripulação comandada por Dobrovolsky passasse agora para uma posição de suplente em relação à tripulação de Leonov, sendo a tripulação principal para um terceiro voo à Salyut-1.

A 28 de Maio os seis cosmonautas chegam ao cosmódromo de Baikonur para iniciarem a fase final para o lançamento da segunda missão que teria como destino a estação Salyut-1. No entanto os planos seriam significativamente alterados a 3 de Junho quando um incrédulo Kubasov recebe a notícia dos médicos do Instituto de Problemas Biomédicos de que haviam encontrado um inchaço nos seus pulmões que poderia indicar o início de tuberculose. Kubasov teria de ser removido da tripulação da próxima missão espacial tripulada. No entanto, e segundo as regras impostas pelo Ministério da Indústria e pelo Ministério da Saúde, caso algum cosmonauta adoeça antes da partida da sua tripulação para o cosmódromo, este deverá ser substituído pelo correspondente cosmonauta suplente. A substituição do cosmonauta não é possível no cosmódromo e caso surja a necessidade de substituir um cosmonauta nesta situação, então toda a tripulação deverá ser substituída.

Assim, quando a poucos dias do lançamento da Soyuz-11 Dobrovolsky recebeu uma chamada para se apresentar junto da Comissão Governamental que supervisionava as actividades de preparação para a segunda missão tripulada à estação espacial Salyut-1, nunca pensaria que o seu primeiro voo espacial teria lugar mais rapidamente do pensara. Os problemas de saúde com o cosmonauta Kubasov não melhoraram e os médicos decidiram definitivamente impedi-lo de voar, o que levou a que a tripulação principal da Soyuz-11 (constituída por Leonov, Kubasov e Kolodin) fosse toda substituída pela tripulação suplente constituída por Dobrovolsky, Volkov e Patsayev.

A substituição dos tripulantes numa altura tão perto do seu lançamento provocou reacções dos três homens. Leonov sofreu psicologicamente, enquanto que Kubasov ficou fora de si. Aparentemente na noite do dia 3 de Junho, Kolodin apareceu no hotel onde os cosmonautas descansavam dos dias de trabalho, embriagado e falando descontroladamente sobre o facto da possibilidade de certamente não vir a ter outra oportunidade de realizar um voo espacial. Leonov tentou junto dos seus superiores fazer com que somente Kubasov fosse substituído pelo cosmonauta Vladislav Volkov. Por momentos a Comissão Estatal pareceu estar inclinada em substituir somente Kubasov ao contrário das directrizes existentes. Todos concordaram nisso e até Mishin e Kerimov relutantemente aceitaram a substituição. No entanto, e após Mishin debater com a comissão em Moscovo a alteração da tripulação, este resolveu que a substituição deveria ser em relação a todos os membros da tripulação.

O foguetão lançador 11A511 Soyuz foi transportado para a Plataforma de Lançamento 17P32-5 (LC1 PU-5) no dia 4 de Junho de 1971 e nesse mesmo dia foi levada a cabo uma reunião da Comissão Estatal. Nesta reunião Kamanin recomendou mais uma vez a substituição de Kubasov, mantendo os restantes dois tripulantes. Mishin, no entanto, tinha o apoio dos restantes membros da comissão e foi decidido substituir toda a tripulação. Foi o próprio Mishin que nessa noite falou com os cosmonautas para os informar acerca da substituição a dois dias do lançamento. Num ataque de fúria Kolodin amaldiçoou Mishin, insultando-o e referindo que a História nunca o iria perdoar por tal.

A tripulação da missão Soyuz-11. Da esquerda para a direita: Vladislav Nikolaievich Volkov; Georgi Timofeyevich Dobrovolsky e Viktor Ivanovich Patsayev. Imagem: Arquivo fotográfico do autor

Naqueles dias o moral pelo Centro de Treino de Cosmonautas Yuri Gagarin e pelo programa espacial soviético em geral, andava muito em baixo. Os Estados Unidos haviam ganho a corrida à Lua e as viagens lunares quase se tornaram rotina, apesar do programa lunar americano ter já os dias contados. A União Soviética havia abandonado o seu ambicioso programa lunar tripulado após o sucesso americano e os frustrantes fracassos do foguetão N-1. Fora tomada a decisão de se enveredar por um programa de lançamento de estações espacial em órbita terrestre nas quais os cosmonautas soviéticos poderiam aperfeiçoar várias técnicas espaciais, realizar experiências para posterior aplicação no mundo socialista providenciando uma vida melhor a todos os cidadãos e enaltecendo os resultados da política de então. A permanência prolongada em órbita faria dos cosmonautas soviéticos sucessivamente detentores de recordes de permanência em órbita terrestre.

O controlo terrestre prepara a chegada da Soyuz-11 elevando a órbita da estação para um apogeu de 240 km de altitude e um perigeu de 209 km de altitude no dia 5 de Junho de 1971, sendo refinada no mesmo dia para um apogeu de 235 km de altitude e um perigeu de 210 km de altitude.

O lançamento da cápsula Soyuz 7K-T nº 32 teve lugar às 0455UTC do dia 6 de Junho de 1971. Após entrar em órbita terrestre a cápsula foi baptizada com a designação Soyuz-11 (05283 1971-053A). A Soyuz-11, que utiliza o nome de código Yantar, fica colocada numa órbita com um apogeu de 238 km de altitude e um perigeu de 160 km de altitude. A acoplagem com a Salyut-1 tem lugar às 0749UTC do dia 7 de Junho e desta vez tudo correu como previsto. Patsayev torna-se no primeiro cosmonauta a tripular uma estação espacial em órbita entrando na Salyut-1 após se verificar a consistência da acoplagem e de se proceder à verificação da pressurização.

A primeira tarefa da tripulação foi a activação do sistema de regeneração do ar a bordo e substituir duas das seis unidades de ventilação do sistema de suporte de vida. Poucas horas após entrarem na estação espacial os três homens começaram a sentir um cheiro a queimado na atmosfera da Salyut o que os obrigou a passarem uma noite desconfortável na Soyuz-11. Os cosmonautas voltam a entrar na estação espacial no dia 8 de Junho e então descobrem que o cheiro acabara por se dissipar. Os cosmonautas iniciam então a activação da instrumentação na estação que lhes serviriam para levar a cabo o seu programa científico. As experiências médicas e biológicas têm início no dia 9 de Junho e a 11 de Junho é a vez de se iniciar as experiências em outras áreas de investigação (observação terrestre, medições espectográficas do território soviético, experiências na área da microgravidade, etc.).

Ao lado: Dobrovolsky e Volkov no interior da estação espacial Salyut-1. Imagem: Arquivo fotográfico do autor

A vida a bordo da Salyut-1 depressa entrou numa rotina diária de 14 horas com 8 horas de trabalho, 2 horas de refeições, 2 horas de tempo para cada cosmonauta e 2 horas para exercícios físicos. Os três homens estabeleceram uma rotação na qual enquanto Dobrovolsky tomava o seu pequeno-almoço, Volkov tomava o seu almoço e Patsayev o seu jantar. Nesta rotina enquanto dois cosmonautas se encontravam acordados, um deles descansava.

A permanência na Salyut-1 foi recheada com mais de 140 experiências incluindo estudos da circulação pulmonar, testes de acuidade visual, estudo do sistema cardiovascular, análises sanguíneas, medição da densidade dos tecidos ósseos, estudos de microflora, estudo do crescimento de plantas, estudo do sistema vestibular dos girinos, estudo de mutações em moscas, estudo do crescimento de algas e desenvolvimento de grãos em microgravidade. Foram também levados a cabo estudos em Astronomia e Astrofísica apesar dos problemas com a cobertura do telescópio OST-1, além de estudos sobre os raios gama.

Pela primeira vez no programa espacial soviético a televisão estatal mostrou a vida dos cosmonautas em órbita a bordo da estação. As imagens dos três cosmonautas em órbita contrastavam com uma certa visão que o país possuía dos seus exploradores espaciais. As notícias na televisão mostravam os três homens de uma forma quase cómica e que se divertiam constantemente em órbita. Os três cosmonautas ficaram imediatamente conhecidos em toda a União Soviética e representavam uma nova casta de cosmonautas para um país com o prestígio amachucado pelo sucesso das missões lunares Apollo.

Ao lado: Dobrovolsky e Volkov levam a cabo experiências médicas no interior da estação espacial salyut-1. Imagem: Corporação RSC Energiya (Encyclopedia Astronautica).

A União Soviética, pela primeira vez em muitos anos, tinha algo a reclamar na Corrida Espacial. Os Estados Unidos só lançariam a sua primeira estação espacial em 1973 e a colocação em órbita da Salyut-1 e a sua utilização por longos períodos era uma grande vitória soviética.

O regresso dos cosmonautas era aguardado pela população em geral, que todos os dias via os seus novos heróis na televisão, de uma maneira que já há muito tempo não se sentida na União Soviética. No entanto, e como quase na totalidade de todas as histórias na União Soviética, os programas informativos da televisão e os relatórios da agência de notícias TASS, não mostravam a verdadeira realidade a bordo da Salyut-1. Dois aspectos importantes do decorrer da missão foram ocultados da população. Durante a permanência em órbita existiram conflitos de personalidade entre os membros da tripulação. Muitas das disputas entre os tripulantes acabaram por ser resolvidas, no entanto uma situação marcou profundamente os três homens. A 16 de Junho o cosmonauta que se encontrava no controlo de voo, Shatalov, recebeu uma chamada de Vladislav Volkov dizendo que havia sentido um forte cheiro a fumo no interior da estação. Isto alarmou os cosmonautas que se encontravam de serviço no controlo de voo que imediatamente ordenaram aos três homens em órbita que procurassem refúgio no interior da cápsula Soyuz-11 onde deveriam iniciar os procedimentos para se separarem da estação espacial. A Dobrovolsky, Volkov e Patsayev entraram de imediato na Soyuz e procuraram de forma metódica encontrar a causa do forte cheiro na Salyut. Os cosmonautas activaram o sistema suplente de fornecimento de energia e activaram os filtros que purificaram a atmosfera da estação. Os três homens voltaram para o interior da Salyut após momentos tensos no interior da Soyuz-11 e após os instrumentos terem testado a qualidade do ar da estação espacial.

Esta situação aumentou as tensões entre a tripulação quando o Volkov, veterano de um voo espacial anterior, tentou resolver o problema por ele próprio e ignorando a assistência dos seus companheiros. Volkov foi posteriormente repreendido por Mishin que o informou que todas as decisões devem passar pelo Comandante da missão, Dobrovolsky, apesar da discordância de Volkov. Este facto veio a revelar um cheque de personalidades entre Volkov e Dobrovolsky. Volkov achava que deveria ser o comandante da missão por ser o cosmonauta mais experiente dos três. Volkov havia actuado de uma forma irresponsável e as suas atitudes mesmo com o controlo da missão eram por vezes irreflectidas.

Aparentemente um pequeno incêndio num cabo de fornecimento de energia teria provocado um pequeno incêndio que originou o cheiro a queimado no interior da estação. A tripulação teria imediatamente solicitado a permissão para regressar à Terra, mas foi convencida pelos companheiros no controlo da missão a permanecerem em órbita e a finalizarem o programa de actividades científicas.

Os três cosmonautas em órbita tinham também como objectivo observar o lançamento do foguetão 11A52 N-1 nº 6L a partir do Cosmódromo NIIP-5 Baikonur no dia 20 de Junho. No entanto o lançamento do foguetão foi sucessivamente adiado para os dias 22 de Junho e depois para 27 de Junho. Nesta altura a trajectória orbital da estação não passava sobre o local de lançamento na hora prevista e os cosmonautas não testemunharam mais um fracasso do N-1. Porém, foram capazes de observar o lançamento de mísseis balísticos a partir de Baikonur nos dias 24 e 25 de Junho utilizando o aparelho militar Svinets.

O programa médico dos três cosmonautas não foi levado a cabo na sua totalidade, estando os três homens relutantes na realização de exercícios físicos. O programa médico foi também afectado pelo surgimento de vários problemas na estação. A situação era problemática no caso de Volkov que se recusava a fazer exercício físico e que não comia carne, estando constantemente irritado e fazendo múltiplos erros a bordo segundo Kamanin escreveu nos seus diários. A passadeira de corrida era raramente utilizada pelos cosmonautas devido ao facto de originar vibrações que abanavam os painéis solares da estação e as antenas de comunicações. Problemas surgiram também num fato (o Chibis) destinado a aumentar a circulação sanguínea na parte superior do corpo e num outro fato (o Pingvin) destinado a induzir diversas forças nos músculos. Era esperado que os três homens regressassem à Terra em más condições físicas.

Triunfo e tragédia

No dia 22 de Junho reuniu-se a Comissão Estatal para decidir a data do fim da missão. Por esta altura Vasili Mishin havia desistido da sua pretensão de que a missão deveria ter uma duração de 30 dias devido aos receios sobre o estado físico dos três cosmonautas. A Comissão Estatal confirmaria que a missão iria terminar a 30 de Junho de 1971.

No dia 24 de Junho os três homens em órbita batiam o recorde de permanência no espaço que fora estabelecido pelos compatriotas Andrian Grigorievich Nikolayev e Vitali Ivanovich Sevastyanov a bordo da cápsula espacial Soyuz-9 (a Soyuz-9 fora colocada em órbita no dia 1 de Junho de 1970 – 2000UTC – por um foguetão 11A511 Soyuz a partir da Plataforma 17P32-6 (LC31 PU-6) do Cosmódromo NIIP-5 Baikonur, e regressou à Terra no dia 19 de Junho de 1970 – 1159UTC – após um voo com uma duração de 17 dias 16 horas 59 minutos.), e a 26 de Junho iniciaram os preparativos para o regresso à Terra. A tripulação terminou todos os procedimentos para o regresso e no dia 29 de Junho entraram na Soyuz-11, fechado a escotilha atrás de si. Após ingressarem no módulo de descida, os tripulantes selaram a escotilha que separa este módulo do módulo orbital. Nesta altura surgiu uma indicação no painel de controlo da Soyuz-11 que indicava que a escotilha entre os dois módulos não estava correctamente selada. Nesta fase os três homens estavam extenuados o que levou um irritado Volkov a gritar para o controlo da missão no solo, perguntando o que deveriam fazer. O cosmonauta Alexei Stanislavovich Yeliseyev encontrava-se de serviço no posto de comunicador com a tripulação e foi capaz de acalmar os seus três companheiros exaustos em órbita indicando-lhes uma série de passos para resolver o problema. Apesar de Dobrovolsky e Patsayev seguirem à risca as indicações de Yeliseyev, a luz no painel de controlo da cápsula continuava acesa o que levou os três homens a ficaram extremamente nervosos com a situação pois aquela escotilha seria, em poucos minutos, a única barreira de separação com o vácuo espacial.

No controlo da missão os engenheiros tentavam encontrar uma solução para o problema e encontrar a sua causa. Eles acreditavam que o problema estava ao nível do sensor que indicava o encerramento correcto da escotilha e como tal pediram à tripulação para colocar um pedaço de papel sobre o sensor e tentar de novo o encerramento da escotilha. Dobrovolsky assim o fez o finalmente a luz acabou por se apagar com os testes de selagem e boa pressurização realizados posteriormente a indicarem que tudo estava bem.

A separação entra a Soyuz-11 e a Salyut-1 tem lugar às 1825:15UTC do dia 29 de Junho e a cápsula executa algumas manobras em torno da estação para obter algumas fotografias. Momentos antes das 2235UTC Volkov anuncia:

  • A luz do indicador de regresso está ligada!
  • Assim seja. Está correctamente ligada!!! As comunicações estão a finalizar. Boa sorte!!!!”, foi a resposta do controlo da missão.

Este foi o último diálogo com a tripulação. A Soyuz-11 saía fora da zona de comunicações com o controlo no solo e as comunicações com a tripulação nunca mais seriam restabelecidas.

A cápsula Soyuz-11 jaz tombada após aterragem (imagem em cima). A terrível verdade do silêncio dos cosmonautas no regresso à Terra brevemente se tornaria na visão aterradora dos três homens mortos no seu interior. As equipas de resgate ainda tentaram reanimar os três homens, mas já era tarde demais (imagem ao centro). Os seus corpos foram cobertos com lençóis brancos enquanto aguardavam o transporte para Moscovo nas planícies do Cazaquistão (imagem em baixo). Imagens: Arquivo fotográfico do autor.

Às 2235:24UTC os motores da Soyuz-11 são activados iniciando a sequência de regresso. Os três módulos da Soyuz separam-se às 2247:28UTC. Devido à falta de comunicações o controlo da missão não tinha maneira de saber se a activação dos motores da Soyuz-11 tinha realmente acontecido e se os três módulos se haviam separado. As forças de recolha procederam como se tudo estivesse de acordo com o planeado.

Após o período no qual as comunicações são impossíveis entre o módulo de regresso e a Terra devido aos efeitos da reentrada atmosférica, era de esperar que a tripulação tentasse comunicar com o controlo da missão. Porém, à medida que os minutos iam passando um silêncio profundo mantinha-se, aqui e ali interrompido pelos gritos da estática.

A Soyuz-11 acabaria por aterrar às 2316:52UTC a 202 km a sudeste de Dzhezkazgan após um voo com uma duração de 23 dias 18 horas 21 minutos e 43 segundos, tendo percorrido 15,932 milhões de quilómetros em 384 órbitas em torno da Terra.

A verdadeira razão pelo incomodativo silêncio da tripulação seria revelado de uma forma brutal e horrível aos homens que se dirigiram para auxiliar os três cosmonautas a saírem da Soyuz-11. Assim que a equipa de socorro abriu a escotilha de acesso ao módulo de regresso foi confrontada coma terrível visão de três cosmonautas mortos ainda nos seus assentos. No local foram feitas tentativas desesperadas para reanimar os três cosmonautas, mas já era tarde de mais. A Comissão Estatal recebia entretanto a notícia da morte dos três cosmonautas e imediatamente dirigiu-se para o local de aterragem desde Moscovo. As primeiras análises feitas no local de aterragem indicaram a presença de azoto no sangue dos três cosmonautas, sangue nos seus pulmões e graves hemorragias cerebrais, tudo indicadores de morte por descompressão rápida. No interior da cápsula foi verificado que os transmissores rádio haviam sido desligados manualmente e que os cintos de segurança dos três cosmonautas haviam sido desapertados, estando Dobrovolsky preso pelo seu cinto. Tudo na Soyuz-11 parecia estar normal, mas foi então que se descobriu que uma das válvulas do sistema respiratório se encontrava aberta, indicando assim para a hipótese de uma descompressão rápida.

Uma Comissão Estatal foi nomeada para investigar as causas do acidente. A comissão, nomeada pelo Ministro da Defesa Dmitri Ustinov, foi dirigida pelo Académico Mstislav Keldysh sendo o Desenhador-Chefe do Bureau de Pesquisa Lavichkin, Georgi Babakin, o secretário da comissão. Os restantes membros desta comissão eram o Desenhador-Chefe Valentin Glushko e o Ministro Sergei Afanasyev. A 12 de Julho a comissão divulgava um relatório preliminar que indicava que durante a descida, a 30 minutos da aterragem, a pressão no interior do módulo de regresso baixou rapidamente, levando à inesperada morte dos cosmonautas. Isto foi confirmado pelos exames médicos e patológicos. A baixa de pressão deu-se em resultado de uma falha registada na selagem hermética do módulo.

A uma altitude superior a 150 km e na altura da separação entre o módulo orbital e o módulo de regresso, a pressão neste módulo desceu entre 30 segundos a 40 segundos para o vácuo total. A válvula havia-se aberto prematuramente na separação entre os dois módulos. Apesar de dezenas de testes tentarem simular os terríveis acontecimentos da Soyuz-11, os engenheiros soviéticos não conseguiram apontar uma causa em particular para a abertura da válvula. De forma impressionante, somente quando todos os tipos de desvios dos parâmetros normais foram introduzidos de forma simultânea se assistiu à falha da válvula de teste.

A reconstrução dos acontecimentos a bordo da Soyuz-11 revela a forma rápida e totalmente inesperada de como Dobrovolsky, Volkov e Patsayev vieram a falecer. A queima que colocou a Soyuz-11 numa trajectória de regresso correu como previsto e logo de seguida procedeu-se à separação dos três módulos do veículo. Neste momento 12 dispositivos explosivos foram activados. Porém, a força resultante fez com que uma junta se deslocasse do seu lugar levando a que uma válvula de ventilação se abrisse prematuramente. Esta válvula só se deveria ter aberto após a aterragem. O interior do módulo de regresso estava assim exposto para o vácuo espacial. A tripulação sentiu de imediato uma baixa de pressão ao mesmo tempo que escutava o ruído do ar a escapar-se para o espaço. Dobrovolsky desapertou o seu cinto de segurança e dirigiu-se rapidamente para a escotilha certamente pensando que o problema se encontrava ao nível da selagem desta em consequência do incidente anterior quando ainda acoplados à Salyut-1. Porém, a escotilha estava segura mas a pressão no interior continuava a descer. Para os cosmonautas o som provocado pela fuga de ar provinha não só da válvula de ventilação, mas também dos transmissores de rádio e dos receptores fazendo com que fosse extremamente difícil isolar a sua origem. Patsayev e Volkov desapertaram os seus cintos de segurança e desligaram todos os sistemas de comunicações para determinar a fonte do ruído. O ruído provinha de um ponto situado por debaixo do assento de Dobrovolsky, local onde estava localizada a válvula. Dobrovolsky e Patsayev tentaram fechar a válvula manualmente, mas em vão. O tempo escasseava e os dois homens caíram nos seus assentos, com Dobrovolsky a ter tempo para apertar parcialmente o seu cinto de segurança.

A velocidade de despressurização não deu qualquer hipótese de sobrevivência aos três homens, tendo descido dos 920 mmHg para 0 mmHg em 112 segundos. Em 4 segundos o ritmo de respiração de Dobrovolsky subiu dos normais 16 vezes por minuto para 48 vezes por minuto. Os cosmonautas perderam a capacidade de trabalho entre 10 a 15 segundos após o início da despressurização, tendo falecido entre 48 e 49 segundos após a despressurização. Os três homens viveram os seus últimos segundos em agonia entre os 3 a 5 segundos após a separação dos módulos até 20 a 30 segundos antes de falecerem.

Ironicamente a tripulação poderia evitar a sua morte simplesmente tapando a válvula com um dedo, mas acabaram por falecer completamente conscientes da trágica consequência do que havia acontecido.

Os corpos dos três cosmonautas foram transportados para Moscovo algumas horas após a aterragem e no dia 1 de Julho foram sepultados no muro de Kremlin.

Conclusão

A causa exacta da morte de Dobrovolsky, Volkov e Patsayev ainda não é conhecida nos nossos dias. A Comissão Estatal terminou a sua investigação a 17 de Agosto de 1971, dando recomendações específicas para os futuros voos espaciais e que passavam pelo aumento da estabilidade da válvula tendo em conta as diversas cargas a que possa estar sujeita, instalação de sistemas manuais nas válvulas de ventilação e o uso de fatos espaciais pelos cosmonautas durante situações nas quais a despressurização é possível.

Data Apogeu (km) Perigeu (km)
29-Jun-1971 237 229
1-Jul-1971 281 237
27-Jul-1971 235 206
28-Jul-1971 294 222
17-Ago-1971 251 201
19-Ago-1971 314 285
24-Set-1971 295 269
26-Set-1971 264 222
10-Out-1971 182 177

A morte da tripulação da Soyuz-11 foi um pesado choque para a União Soviética. Para lá da perda humana de três cosmonautas, a tragédia da Soyuz-11 anulou por completo o triunfo da primeira estação espacial. Um sentido de frustração percorreu todo o programa espacial soviético numa altura em que parecia que a glória dos dias de Korolev tinha voltado.

Ao lado: Alteração do apogeu e perigeu orbitais da estação Salyut-1 após a separação da Soyuz-11.

As futuras missões à Salyut-1 foram canceladas. A tripulação composta por Leonov, Kolodin e Rukavishnikov, bem como a sua tripulação suplente, havia começado a treinar para a sua missão, que seria lançada a 20 de Julho de 1971, a 16 de Junho. No dia 9 de Julho eram cancelados os treinos das tripulações.

A quando do final da missão da Soyuz-11 a estação Salyut encontrava-se numa órbita com um apogeu a 237 km de altitude e um perigeu a 229 km de altitude. O quadro ao lado indica a variação do apogeu e do perigeu da estação até à sua reentrada na atmosfera terrestre no dia 11 de Outubro de 1971 sobre o Oceano Pacífico.

Se 1969 foi um ano humilhante para o programa espacial soviético, 1971 representa o ponto mais baixo da sua história.

Bibliografia:

  • Challenge to Apollo – The Soviet Union and the Space Race, 1945 – 1974”; Asif A. Siddiqi – The NASA History Series; 2000.
  • Who’s Who In Space – The International Space Station Edition”; Michael Cassutt – Macmillan Library Reference USA; 1999.
  • The Soviet Cosmonaut Team”; Gordon R. Hooper – GRH Publications; 1990.
  • Soyuz – A Universal Spacecraft”; Rex D. Hall, David J. Shayler – Springer-Praxis Publications; 2003.
  • Disasters and Accidents in Manned Spaceflight”; David J. Shayler – Springer-Praxis Publications; 2000.

Endereços na Internet acedidos à data da elaboração deste texto (Julho de 2011):

 

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