Fogo Negro – Reentrada de Satélites Espiões durante a Guerra-fria

É a base de uma história de espionagem da Guerra-fria: um satélite espião ultra-secreto norte-americano cai na Terra e os Soviéticos correm para recuperar os seus destroços na esperança de descobrir os segredos técnicos que tornam estes satélites tão bons. É claro, foi a base da “Ice Station Zebra” de Alistair MacLean, que mais tarde foi transformado num filme que obcecou Howard Hughes, utilizando elementos similares. Mas era uma possibilidade bem real. Tão real que, de facto, o governo dos Estados Unidos disponibilizou muitos recursos para determinar o que poderia sobreviver à ardente reentrada e caída para a Terra.

No entanto, só o fizeram após um embaraçante, mas secreto, acidente.

No princípio dos anos 70, um agricultor inglês descobriu pedaços de um satélite espião secreto norte-americano nos seus campos. Os oficiais britânicos e norte-americanos depressa esconderam o incidente, mas este chamou a atenção da Administração Nixon na Casa Branca, que estavam preocupados com o facto de ter simplesmente ocorrido. O que teria acontecido caso o satélite tivesse caído na União Soviética em vez do Reino Unido? Foram feitas perguntas duras à Força Aérea e ao National Reconnaissance Office (NRO) – que geria o programa dos satélites espiões – em relação à quantidade de equipamento secreto que poderia sobreviver à reentrada atmosférica. Segundo os modelos de então, nada do satélite deveria sobreviver à reentrada. Então, a Casa Branca sugeriu que talvez esses modelos devessem ser testados.

A Força Aérea e o NRO desenvolveram um plano. Entre 1971 e 1973 fizeram reentrar de forma deliberada seis satélites espiões, incluindo dois do novo tipo KH-9 HEXAGON, do tamanho de um autocarro escolar, sobre o Pacífico em áreas onde as reentradas pudessem ser monitorizadas por numerosos sensores, incluindo radar e câmaras de infravermelhos e luz visível. Os testes revelaram que os modelos teóricos estavam errados: um veículo ao reentrar na atmosfera não aquecia tanto como se pensava, e como tal não ardiam como era esperado. Os testes resultaram em novas políticas para se descartar os satélites espiões após o final das suas missões. Duas décadas e meia mais tarde, a Força Aérea e o NRO voltaram a fazê-lo.

Estrelas ardentes

Durante décadas os observadores amadores têm ido para os seus quintais à noite para observar os satélites classificados a voar sobre as suas cabeças e determinar as suas órbitas. Eles notaram que ao fim de um certo número de anos em órbita, os satélites são «reformados» e substituídos, reentrando na atmosfera numa queda ardente sobre o Oceano Pacífico. Mas nunca foi claro quando o NRO iniciou esta prática. Em 1964 a cápsula de reentrada de um satélite de reconhecimento CORONA caiu de forma acidental na Venezuela e foi recuperado. Em 1959, a Força Aérea estava preocupada com o facto de que o segundo Discoverer – uma versão de desenvolvimento do que se tornariam os satélites CORONA – poder ter caído em mãos soviéticas. No princípio dos anos 60 também ocorreu um incidente envolvendo um protótipo de um satélite de reconhecimento Samos que aparentemente terá caído no Canadá, que pode ainda estar enterrado numa floresta até aos nossos dias. Certamente que a possibilidade de que tecnologia altamente classificada pudesse cair no território soviético deve ter preocupado os responsáveis da NRO. Mas não é claro se o NRO tinha uma política de retirar de órbita os seus satélites de reconhecimento no final das suas vidas úteis nos anos 60 e no princípio dos anos 70. Porque é que o KH-8 caiu na Inglaterra, permanece classificado?

Os aviões EC-135 ARIA tais como estes foram utilizados nos programas VAST e VASP para observar os testes de reentrada atmosférica realizados por satélites espiões norte-americanos nos princípios dos anos 70. Os narizes volumosos destes aviões albergavam grandes antenas receptoras que recebiam sinais dos satélites à medida que se desintegravam. Imagem: NASA

Alertadas pela Casa Branca, a Força Aérea e o NRO iniciaram uma série de testes em 1971 conhecido como VAST – Vehicle Atmospheric Survivability Tests. Existia uma vasta quantidade de recursos que estavam já convenientemente colocados no terreno. Durante o final dos anos 60 os Estados Unidos estavam a desenvolver um sistema de mísseis anti-balísticos (ABM). O objectivo era ambicioso: abater os veículos de reentrada, que são alvos pequenos e rápidos rodeados por uma camada de gás ionizado. Para abater os veículos na fase de reentrada, é necessário conhecer qual a sua aparência à medida que viajam pela atmosfera, e para tal a Força Aérea havia colocado numerosos sensores em ilhas no Oceano Pacífico, além de navios e aviões, para medir como seria um veículo de um ICBM americano no espaço e na fase de reentrada dirigindo-se para a sua zona alvo. Também foram desenvolvidos sensores para seguir e medir os veículos soviéticos na mesma fase.

Em Fevereiro e de novo em Maio de 1971, o NRO levou a cabo testes de reentrada de satélites de reconhecimento KH-8 GAMBIT após o final das suas missões. O KH-8 estava nesta altura equipado com dois veículos de reentrada, permitindo aos operadores obter fotografias e recuperá-los, colocar o veículos em «modo zombie» por um determinado período de tempo, e depois «acordá-los» para obter mais fotografias, enchendo o segundo veículo de reentrada. Quando esse segundo veículo estava completo, era ejectado e recuperado. Nesse ponto, o satélite era inútil (a não ser que tivesse uma carga secundária, tal como um detector de sinais de radar). O satélite em forma de lápis ainda era, porém, relativamente grande com um diâmetro de 1,5 metros e um comprimento de cerca de 12 metros. Essencialmente tratava-se de um longo cilindro, consistindo de folhas de metal reforçadas, alumínio, e metais similares. A maior parte desse tubo estava cheio de tanques de combustível e oxidante vazios. Mas uma parte continha a câmara, e com tal era uma mistura de vidro e metal, além dos tipos de materiais utilizados num sistema óptico de grande precisão.

Para estes dois primeiros testes, a Força Aérea utilizou um grande conjunto de sensores, incluindo: um navio de rastreio ARIS equipado com radares de banda L e banda C, câmaras ópticas, e antenas de telemetria; pelo menos um avião TRAP equipado com câmaras ópticas e de infravermelhos; e dois aviões de telemetria ARIA. Os aviões ARIA eram os mais bizarros. Eram aviões de reabastecimento C-135 que haviam sido modificados para dar apoio ao Programa Apollo e que transportavam grandes antenas parabólicas de recepção no interior de volumosos narizes dianteiros que os faziam parecer o tipo de aviões que seriam tripulados pelos palhaços. Adicionalmente, um radar no solo localizado em Shemya e o navio de rastreio USN Watertown foram utilizados para o primeiro teste, mas somente o avião PRESS equipado com sensores foi utilizado para o segundo teste, juntamente com os equipamentos mencionados antes.

A razão pela qual a Força Aérea conseguia reunir tanto equipamento estava relacionada com as sobras dos testes ABM. Com os Estados Unidos a cancelar os programas dos mísseis ABM, os seus programas de testes também foram cancelados. Para o terceiro e quarto teste VAST, em Setembro de 1971 e Abril de 1972, não foram utilizados os navios de rastreio nem os aviões, devido ao facto de terem sido retirados de serviço. Para estes testes o NRO decidiu fazer algo de diferente. Os dois primeiros satélites foram enviados para uma reentrada destrutiva sobre o oceano. O terceiro foi enviado numa trajectória que o fez impactar no Alasca, e o quarto impactou em Eniwetok, onde a Força Aérea possuía dispositivos para escutar o impacto de veículos ICBM no oceano, e para os recuperar.

O Big Bird ardente

Em Maio de 1973 o NRO retomou os testes, desta vez designados Vehicle Atmospheric Survivability Program, ou VASP. Em vez dos longos e estreitos KH-8, foram utilizados os satélites KH-9 HEXAGON do tamanho de autocarros. O HEXAGON tinha um diâmetro duas vezes maior do que o KH-8 e era também mais longo. Era um satélite tão grande que acabou por receber a alcunha de ‘Big Bird’ no centro de lançamentos de Vandenberg. O seu sistema de câmaras e secção frontal eram também consideravelmente mais volumosa e pesada do que o KH-8. O teste de Maio utilizou um navio de rastreio ARIS, dois aviões ARIA, e um radar no solo em Shemya.

Em Outubro de 1973 o NRO enviou outro KH-9 para uma reentrada destrutiva, desta vez utilizando um navio de rastreio ARIS, um avião TRAP, e três aviões ARIA. Enquanto que o teste VASP de Maio foi feito no mar aberto, este teste foi realizado sobre Eniwetok, e foi monitorizado não só por dispositivos submarinos, mas também por um submarino. Segundo um relatório, os dados obtidos pelo avião TRAP na segunda reentrada “eram extremamente informativos e notáveis.” Aparentemente, muito mais do satélite terá sobrevivido à reentrada durante muito mais tempo do que os modelos previam, e os sensores ópticos dos aviões foram capazes de observar grande parte do veículo enquanto se encontrava dentro da atmosfera.

Nem todos os detalhes destes testes foram desclassificados. Apesar de tudo, os satélites KH-8 e KH-9 permanecem classificados. Mas não é necessária muita imaginação para imaginar porque é que o NRO levou a cabo as reentradas sobre a Eniwetok Lagoon e até monitorizou a amaragem com um submarino – se os soviéticos quisessem recuperar partes de um satélite de inteligência americano, ele iriam utilizar métodos semelhantes.

Os satélites KH-8 consistiam numa secção com a câmara e um estágio superior Agena acoplado com o seu motor e sistemas de controlo. Os satélites KH-9 eram essencialmente um grande corpo uniforme mas eram também descritos como possuindo uma “popa” – possivelmente referindo-se aos grandes painéis solares acoplados à parte posterior – que produzia alguma sustentação durante parte da reentrada e “corrompia” a trajectória. Mas ambos os tipos de veículos espaciais eram fabricados em materiais similares e, por isso, ambos começavam a derreter-se quando atingiam uma certa temperatura. Os satélites KH-9 possuíam sensores de temperatura a bordo, possivelmente incluídos só para propósitos de testes. Esta pode ter sido a razão para se utilizar tantos aviões ARIA – estavam lá para obter as emissões electrónicas de um satélite a arder viajando através da atmosfera e desfazendo-se aos poucos.

O que os seis testes acabaram por revelar foi que os modelos de reentrada atmosférica estavam errados numa ordem de magnitude. Isto pode ter sido algo de surpreendente para aqueles familiares com o programa, e explica o facto de partes dos KH-8 terem sobrevivido e caído em Inglaterra. Segundo um relatório não classificado, os testes levaram a alterações nos procedimentos para os satélites no final das suas vidas úteis, apesar de não serem conhecidas que alterações foram feitas. Presumivelmente, a maior alteração esteve na garantia de que os satélites seriam deliberadamente retirados da órbita terrestre, sendo afundados nas áreas mais profundas do oceano[1].

[1] Baseado no artigo “Black Fire: De-orbiting spysats during the Cold War”, publicado em The Space Review (http://www.thespacereview.com/article/1715/1). Traduzido com autorização do autor e publicado na versão pdf do Boletim Em Órbita n.º 104, Dezembro de 2010

 

Comente este post

%d blogueiros gostam disto: