De África para o Espaço: San Marco e Hammaguir

Ao contrário do que muitos possam pensar os actuais polígonos espaciais foram antecedidos por outras localizações a partir das quais foram realizados lançamentos orbitais e não só. Alguns destes locais de lançamento serviram inicialmente como locais de lançamento de foguetões sonda, sendo posteriormente adaptados para lançamentos orbitais. Em África existiram dois polígonos de lançamento que durante alguns anos tiveram o seu lugar na História da exploração espacial. San Marco, ao largo da costa do Quénia, e Hammaguir, na Argélia, serviram para testar alguns lançadores orbitais e colocar em órbita pequenos satélites científicos.

San Marco

Situado a 2º 56’ 27’’ de latitude Sul e 40º 12’ 48’’ de longitude Este, o complexo de San Marco foi operada pela Itália até 1988 altura em que se levou a cabo o último lançamento.

Em 1962 a agência espacial norte-americana NASA assinava um contrato com o centro de pesquisa aeroespacial da Universidade de Roma. Este contrato dava origem ao programa San Marco que tinha como principal objectivo a colocação em órbita de um satélite artificial italiano e a criação de um polígono de lançamentos equatorial para o foguetão americano Scout. Meses mais tarde foi obtida a permissão do Quénia para a colocação de duas plataformas petrolíferas modificadas ao largo da sua costa no equador e que constituiriam o complexo de San Marco. A plataforma de San Marco tinha como função o lançamento dos foguetões Scout enquanto que a plataforma Santa Rita servia como centro de controlo de lançamentos e como local de lançamento de foguetões sonda.

No Inverno de 1963 e 1964 a plataforma de Santa Rita era rebocada desde Itália. Tendo uma forma triangular com 40 metros de lado, a plataforma foi ancorada numa zona com 20 metros de profundidade. Por seu lado a plataforma de San Marco tinha um comprimento de 100 metros e uma largura de 30 metros, sendo inaugurada em 1966. O primeiro lançamento a partir de Santa Rita foi levado a cabo a 25 de Março de 1964 com o lançamento de um foguetão sonda Nike-Apache que atingiu uma altitude de 200 km. Este lançamento serviu para testar os sistemas da plataforma. O primeiro lançamento levado a cabo desde a plataforma de San Marco teve lugar a 26 de Abril de 1967 e resultou na colocação em órbita do satélite San Marco 2.

Lançamentos desde o Complexo de San Marco

A segunda missão de teste a partir de Santa Rita teve lugar a 30 de Março de 1964 com o lançamento de outro foguetão sonda Nike-Apache. O foguetão atingiu uma altitude de 200 km tal como viria a acontecer com o terceiro lançamento de teste levado a cabo a 2 de Abril.

A 26 de Abril de 1967 ocorre o primeiro lançamento orbital desde San Marco. Um foguetão Scout-B (S153C) é lançado às 1006:24UTC colocando em órbita o satélite San Marco-2 (03761 1967-038A). O satélite San Marco-2 era um satélite esférico com 0,66 metros de diâmetro que transportava duas experiências. Uma das experiências tinha como objectivo levar a cabo medições directas da densidade do ar abaixo dos 350 km de altitude, enquanto que a segunda experiência tinha como objectivo testar uma baliza (farol) ionosférico desenvolvido para observar o conteúdo de electrões entre a Terra e o satélite. A forma esférica do satélite era importante para a realização da experiência de medição da densidade do ar dado que proporcionava uma secção constante nos efeitos desaceleradores do ar, simplificando assim a interpretação dos dados e eliminando a necessidade de um controlo de atitude para o satélite.

A plataforma de Santa Rita no dia do lançamento do satélite Ariel-5 que seria lançado desde a plataforma de San Marco. Imagem: NASA

Após o lançamento uma antena dipolar de 5 metros de comprimento foi colocada em posição ao logo do eixo de rotação do satélite quando a experiência ionosférica foi activada. Por outro lado, quatro antenas com um comprimento de 0,48 metros foram colocadas simetricamente no equador do satélite.

O San Marco-2 (imagem ao lado) possuía secções pretas e brancas longitudinais na sua superfície para controlo térmico. A missão do satélite era a de estudar a densidade e as suas variações em pequena escala, e levar a cabo um estudo equatorial da densidade da irregularidade de electrões e analisar a propagação rádio acima dos 200 km. O satélite recebia energia a partir de quatro baterias e uma medição da atitude do satélite era levada a cabo utilizando-se quatro sensores solares.

O San Marco-2 funcionou perfeitamente até 5 de Agosto de 1967 altura em que a energia disponível não permitiu mais enviar comandos ao satélite que acabou por reentrar na atmosfera terrestre a 19 de Outubro de 1967 após ter executado 2.680 órbitas do planeta.

O complexo permaneceria inactivo durante mais de dois anos até que a 12 de Dezembro de 1970 (1053:50UTC) tinha lugar o lançamento do satélite Explorer-42 (04797 1970-107A) que recebeu também a designação Uhuro. O lançamento foi levado a cabo por um foguetão Scout-B (S175C). O satélite Uhuro foi o primeiro veículo de uma série de pequenos satélites destinados à observação da esfera celeste e á procura de fontes de radiação de raios-X, raios gama, ultravioletas e outras regiões do espectro electromagnético. A principal missão do satélite foi a obtenção de um catálogo de corpos celestes que emitiam raios-X ao observar constantemente o céu entre os 2 KeV e os 20 keV.

O satélite (imagem em cima) tinha uma forma cilíndrica com um diâmetro de 0,56 metros e um comprimento de 1,16 metros. Quatro painéis solares eram utilizados para recarregar uma bateria de cádmio-níquel e para fornecer energia para o satélite e experiências. O satélite era estabilizado por um giroscópio interno e um sistema de comando com torque magnético era utilizado para apontar o eixo de rotação para qualquer ponto do céu. O sistema de sensores do satélite consistia num sensor solar e num sensor estelar que utilizavam os mesmos sistemas electrónicos de processamento. O sistema foi desenhado comum grande ênfase na redundância, não só nas áreas mais óbvias como os sensores e abastecimentos de energia de alta e baixa voltagem, mas também na obtenção de sinais e distribuição de alta voltagem. O instrumento era capaz de suportar várias falhas sem comprometer a obtenção de resultados científicos.

O terceiro lançamento orbital desde San Marco surge a 24 de Abril de 1971 (0732:29UTC) com o lançamento do satélite San Marco-3 por um foguetão Scout-B (S173C). O San Marco-3 foi construído pela Itália e tinha como principais objectivos proporcionar medições da densidade, composição e temperatura da atmosfera equatorial superior acima dos 200 km de altitude, e medir as variações nestes parâmetros como funções da actividade solar e geomagnética. Um objectivo secundário da missão do San Marco-3 era determinar a densidade neutral ao utilizar três técnicas de medição independentes.

Lançamento do primeiro foguetão Scout-B desde a plataforma de San Marco a 26 de Abril de 1967. Imagem: Arquivo fotográfico do autor.

O San Marco-3 tinha uma forma esférica com um diâmetro de 0,75 metros e possuía quatro antenas protuberantes desde o seu topo para transmissão de comandos e telemetria. A estrutura do satélite formava uma parte integral da experiência de balanço de atrito. Uma camada exterior leve encontrava-se conectada por uma série de braços elásticos a uma estrutura interna mais pesada. Assim, as alterações nos braços flexíveis que ligavam as duas estruturas permitiam a determinação do atrito atmosférico (e logo a densidade). Outros instrumentos a bordo incluíam um espectrómetro de massa que media directamente a densidade e temperatura do nitrogénio molecular, do oxigénio molecular, do oxigénio atómico, árgon e do hélio.

Ao contrário dos satélites anteriores da série, o San Marco-3 utilizava um sistema de controlo de atitude e um sistema de controlo de rotação. Os painéis solares estavam colocados equatorialmente no cone interior. O San Marco-3 funcionou normalmente até á sua reentrada a 28 de Novembro de 1971.

O satélite Explorer-45 (imagem ao lado) tornou-se no quarto satélite a atingir a órbita terrestre lançado desde a plataforma de San Marco. Um foguetão Scout-B (S163CR) foi lançado às 0552UTC do dia 15 de Novembro de 1971 e colocou o Explorer-45 numa órbita com um apogeu a 27.031 km de altitude, um perigeu a 224 km de altitude, uma inclinação orbital de 3,5º em relação ao equador terrestre e um período orbital de 469,3 minutos.

O Explorer-45 foi desenhado para levar a cabo uma grande variedade de investigações na magnetosfera tendo em conta os fluxos de partículas, os campos eléctricos e os campos magnéticos. Os seus principais objectivos eram o estudo das características e origem do anel de correntes em torno da Terra e o desenvolvimento das tempestades magnéticas, além de estudar a relação entre as tempestades magnéticas, sub-tempestades e a aceleração de partículas carregadas na magnetosfera interior. Para determinar os mecanismos de interacção onda-partícula, foram levadas a cabo medições direccionais dos protões, electrões e partículas alfa ao longo de uma grande variação de energia, medindo-se o campo magnético e eléctrico.

O Explorer-45 tinha a capacidade de controlar o formato dos dados através da utilização de um conjunto de instruções programadas. Estas instruções governavam a recolha de dados e eram reprogramaveis via rádio. O sistema de comando possuía 80 instruções para controlo do veículo e das funções experimentais, bem como para programas de voo do sistema de processamento de dados.

O sistema de antenas do satélite consistia em quatro antenas de dipolo espaçadas em 90º na superfície do satélite que continha dois transmissores, uma para dados digitais e outra quer para dados digitais ou para dados analógicos em banda larga. O sistema de fornecimento de energia do satélite consistia numa bateria recarregável e num conjunto de células solares. O satélite manteve-se operacional até 30 de Setembro de 1974.

Após o lançamento do Explorer-45 foi levada a cabo uma série de lançamentos de foguetões sonda. O primeiro, um foguetão Nike Tomahawk na missão NASA 18.103GA, foi lançado a 17 de Novembro e levou a cabo uma missão de aeronomia. Uma série de estudos astonómicos foi levada a cabo entre 13 de Março de 1972 e 16 de Março com um outro lançamento a 22 de Março. No total foram lançados cinco foguetões sonda Nike Apache.

Data Hora (UTC) Missão Foguetão sonda Apogeu (km)
13 / Março / 1972 1600 ISRC-PO-4 Nike Apache 185
14 / Março / 1972 1558 ISRC-PO-5 Nike Apache 185
15 / Março / 1972 1600 ISRC-PO-6 Nike Apache 185
16 / Março / 1972 1543 ISRC-PO-7 Nike Apache 185
22 / Março / 1972 0822 ISRC-PO-9 Nike Apache 200

A 15 de Novembro de 1972 (2213:46UTC) era lançado por um foguetão Scout D-1 (S170CR) o satélite Explorer-48 (06282 1972-091A), também designado SAS-2, tendo sido colocado numa órbita com um apogeu a 632 km de altitude, um perigeu a 443 km de altitude, uma inclinação orbital de 1,9º e um período orbital de 95,4 minutos. O Explorer-48 (imagem ao lado) foi o segundo numa série de satélites desenhados para levar a cabo estudos astronómicos nas regiões dos raios-X, raios gama, luz visível, ultravioleta e infravermelhos. O principal objectivo desta missão era o de medir a distribuição espacial e energética da radiação galáctica primária e extragaláctica com energias entre os 20 MeV e os 300 MeV. A instrumentação a bordo consistia principalmente num detector de cintilação e um telescópio de partículas carregadas.

O Explorer-48 era um cilindro com um diâmetro de cerca de 0,59 metros e um comprimento de 1,35 metros. Quatro painéis solares eram utilizados para carregar uma bateria de níquel-cádmio e proporcionar energia para o satélite e instrumentos do telescópio. O satélite era estabilizado por rotação e um sistema de controlo utilizando torques magnéticos era utilizado para direccionar o eixo de rotação para qualquer posição com um erro de aproximadamente 1º.

O telescópio foi activado a 20 de Novembro de 1972 e a 27 de Novembro o satélite estava totalmente operacional. O fornecimento de energia de baixa voltagem falhou a 8 de Junho de 1973 e nenhum dado científico útil foi obtido após esta data.

A 28 de Novembro era lançado desde a plataforma de Santa Rita mais um foguetão sonda Nike Apache que levou a cabo uma missão de estudos ionosféricos e de estudos de aeronomia. Ainda antes do próximo lançamento orbital teria lugar a 30 de Junho de 1973 um novo lançamento de Santa Rita que utilizaria um foguetão Nike Tomahawk para levar a cabo estudos ultravioletas solares.

O quinto lançamento orbital desde San Marco teria lugar às 1005:28UTC do dia 18 de Fevereiro de 1974 com a colocação em órbita por um foguetão Scout D-1 (S190C) do satélite San Marco-4 (07154 1974-009A). Construído pela Itália, o San Marco-4 surgiu da cooperação entre a comissão espacial italiana e a NASA. Colocado numa órbita com um apogeu a 905 km de altitude, um perigeu a 232 km de altitude, uma inclinação orbital de 2,9º e um período orbital de 96,3 minutos, o objectivo deste satélite era a medição das variações diurnas da densidade atmosférica equatorial neutral, sua composição, e temperatura para correlação com outros dados obtidos. Os estudos da física e da dinâmica da baixa atmosfera também estavam incluídos.

O satélite transportava uma experiência denominada Neutral Atmosphere Composition Experiment (NACE) para determinar as concentrações de árgon, hélio, oxigénio atómico, oxigénio molecular e nitrogénio. A bordo seguia também a Neutral Atmospheric Temperatute Experiment (NATE) para determinar a temperatura do nitrogénio molecular, além de um acelerómetro para medir a densidade atmosférica junto do perigeu orbital.

Sendo o quinto satélite de um programa de cooperação espacial entre o Reino Unido e os Estados Unidos, o satélite Ariel-5 (07471 1974-077A) foi colocado em órbita a 15 de Outubro de 1974 (0747:00UTC) por um foguetão Scout B-1 (S187C). O satélite transportou seis experiências para o estudo dos raios-X que mediam o espectro, polarização e características das fontes de raios-X. O satélite era estabilizado por rotação com duas experiências a observarem o céu perpendicularmente ao eixo de rotação e as outras restantes dirigidas ao longo do eixo de rotação.

O Ariel-5 era aproximadamente cilíndrico com um comprimento de 0,86 metros de altura e um diâmetro de 0,96 metros. De forma a permitir a visualização de várias zonas do céu a direcção de observação podia ser alterada por um sistema de propulsão a gás. O satélite foi inicialmente colocado numa órbita quase circular com um apogeu a 557 km, um perigeu a 512 km, uma inclinação orbital de 2,9º e um período orbital de 95,3 minutos.

Lançado a 7 de Maio de 1975 (2245:01UTC) o satélite Explorer-53 (07788 1975-037A) seria o último satélite a ser colocado em órbita desde a plataforma de San Marco por longos anos. O satélite seria colocado em órbita por um foguetão Scout F-1 (S194C). Operando numa órbita inicial com um apogeu a 516 km de altitude, um perigeu a 509 km de altitude, uma inclinação orbital de 3º e um período orbital de 94,9 minutos, o Explorer-53 (também designado SAS-3 ou SAS-C) foi o terceiro numa série de pequenos satélites cujos objectivos eram a observação do céu em busca de raios-X, raios gama, ultravioletas e observação de outras regiões espectrais. A principal missão do Explorer-53 foi a medição da emissão de raios-X a partir de fontes extragalácticas discretas, monitorizar a intensidade e espectro das fontes galácticas de raios-X, e monitorizar a intensidade de raios-X proveniente de Scorpio X-1.

O Explorer-53 transportava quatro instrumentos: o Extragalactic Experiment, o Galactic Monitor Experiment, o Scorpio Monitor Experiment e o Galactic Absorption Experiment. Na sua configuração orbital o satélite tinha uma altura de 1,45 metros e uma largura de 4,70 metros. Quatro painéis solares eram utilizados em conjunto com uma bateria de níquel-cádmio para fornecer energia. O satélite era estabilizado ao longo do eixo espacial Z e tinha uma rotação de 0,1º/s.

Após o lançamento do Explorer-53 iriam passar quase 13 anos para que a plataforma de San Marco voltasse a testemunhar outro lançamento orbital. Entretanto, seriam levados a cabo vários lançamentos sub-orbitais a partir da plataforma de Santa Rita, mas mesmo assim teríamos de esperar até 1980 para que o polígono de San Marco voltasse a registar qualquer actividade.

Uma série de lançamentos teve lugar a 15 e 16 de Fevereiro de 1980 utilizando foguetões sonda Super Arcas, Black Brant 8C e Astrobee D. A seguinte tabela mostra os lançamentos sub-orbitais levados a cabo nesse período.

O satélite Explorer-53 seria o último lançamento desde a plataforma de San Marco num período de 13 anos. Imagem: Arquivo fotográfico do autor

Data Hora (UTC) Missão Foguetão sonda Apogeu (km)
15 / Fevereiro / 1980 0825 NASA 15.200UE Super Arcas 88
16 / Fevereiro / 1980 ???? NASA 27.43AS Black Brant 8C 319
16 / Fevereiro / 1980 0823 NASA 27.42AS Black Brant 8C 298
16 / Fevereiro / 1980 2030 NASA 23.18UE Astrobee D 76
16 / Fevereiro / 1980 0825 NASA 23.17UE Astrobee D 78
16 / Fevereiro / 1980 0825 NASA 15.201UE Super Arcas 84
16 / Fevereiro / 1980 0910 NASA 15.202UE Super Arcas 78

O último lançamento levado a cabo desde a plataforma de San Marco teve lugar a 25 de Março de 1988. Ás 2150UTC um foguetão Scout G-1 (S206C) era lançado desde a plataforma equatorial e colocaria em órbita o satélite San Marco-5 (19013 1988-026A) , também conhecido pela designação San Marco D/L. O satélite foi colocado numa órbita equatorial com um apogeu a 615 km de altitude, um perigeu a 263 km de altitude, uma inclinação orbital de 3º e um período orbital de 93,4 minutos.

O principal objectivo deste satélite era o de explorar a relação entre a actividade solar e os fenómenos da termosfera / ionosfera. A bordo do satélite seguiam cinco sensores: o Drag Balance Instrument (DBI) para determinar a densidade neutral, o Wind and Temperature Spectrometer (WATI), o Ion Velocity Instrument, o Airglow Solar Spectrometer (ASSI) e o Electric Field Meter (EFM). O satélite tinha uma forma esférica com 0,96 metros de diâmetro e com quatro antenas com um comprimento de 0,48 metros para transmissão de telemetria, tendo ainda três pares ortogonais de sensores de campo eléctrico (com um par orientado ao longo do eixo de rotação do satélite). Uma estrutura cilíndrica interna de 0,26 metros de diâmetro estendia-se ligeiramente através da esfera e era coincidente com o eixo de rotação do satélite.

O último satélite a ser colocado em órbita desde a plataforma de San Marco foi o San Marco-5 lançado a 25 de Março de 1988 por um foguetão Scout G-1 (S206C). Imagem: NASA.

O fornecimento de energia consistia num conjunto de células solares divididas em duas secções, dias baterias de níquel-cádmio recarregáveis e circuitos associados. A informação sobre a atitude do satélite era fornecida por um megnetómetro triaxial, um sensor de horizonte, um sensor digital solar e um sensor estelar para calibração. Um sistema de torque magnético era utilizado para controlar a rotação e a atitude do satélite.

O San Marco-5 reentrou na atmosfera a 6 de Dezembro de 1988 e todos os seus instrumentos funcionaram sem qualquer problema excepto para o WATI que deixou de funcionar a 14 de Abril de 1988 devido a um problema com um fusível. Os últimos dados enviados pelo satélite foram registados quando este se encontrava a uma altitude de 150 km durante a reentrada.

O último lançamento orbital a ser levado a cabo desde a plataforma de San Marco teve lugar a 25 de Março de 1988 por um foguetão Scout G-1 (S206C). Imagem: NASA.

Tanto a plataforma de San Marco como a plataforma de Santa Rita nunca foram oficialmente abandonadas. A certa altura surgiu a notícia do surgimento de potenciais programas de desenvolvimento de um lançador orbital (Scout-2, Itália; Vega, ESA) que poderia trazer fundos para a manutenção do polígono. No entanto tais planos nunca vieram a concretizar-se e as plataformas atingiram um estado de grande deterioração.

As plataformas estariam certificadas para uso até 2012 tendo surgido a hipótese de serem utilizadas para o lançamento do foguetão russo Start-1.

Três foguetões sonda foram utilizados a 15 e 16 de Fevereiro de 1980 para levar a cabo estudos de plasma e uma missão de observação de um eclipse solar (16 de Fevereiro de 1980): na imagem superior o pequeno Super Arcas, na imagem em cima o foguetão sonda Aerobee D e em baixo o foguetão sonda Black Brant 8C. Imagens: Arquivo fotográfico do autor.

Hammaguir

Situado a 30º 53’ de latitude Norte e 3º 5’ de longitude Oeste, o complexo de lançamentos de Hammaguir foi operada pela França até 1962 altura em que foi abandonado.

Também designado Centre Interarmees d’Essais d’Engins Speciaux, o complexo de lançamento foi estabelecido pela França na Argélia em 1947. O complexo de Colomb-Bechar iniciou as suas operações a 24 de Abril de 1947 como um centro de testes de armamento, tendo sido estabelecidas duas áreas de lançamento. Os mísseis mais pequenos eram lançados desde o Complexo B0, enquanto que os veículos de maior envergadura eram lançados desde o Complexo B1 inaugurado em Dezembro de 1949. No entanto, o desenvolvimento do foguetão sonda Veronique requeria a utilização de novas instalações que foram estabelecidas a 120 km sudoeste do complexo de Colomb-Bechar. O centro de Hammaguir foi inaugurado em Maio de 1952.

O Polígono de lançamentos de Hammaguir, Argélia, em 1951. Imagem: CNES.

A plataforma de lançamento Brigitte no complexo de lançamentos de Hammaguir. Imagem: CNES.

O complexo de Hammaguir era composto por quatro plataformas: a plataforma Bacchus, para o teste e lançamento de foguetões sonda de combustível sólido; a plataforma Blandine, para o teste e lançamento de foguetões sonda de combustível líquido; a plataforma Beatrice, para o teste dos mísseis terra-ar Hawk e que posteriormente foi utilizada para o teste do veículo Cora em suporte do programa de desenvolvimento do lançador orbital Europa, e a plataforma Brigitte, para o lançamento do foguetão Diamant.

Com a chegada da guerra civil na Argélia a utilização de Hammaguir sofreu um duro golpe e a evacuação do complexo foi colocada como uma condição para o final da guerra. Hammguir continuou a ser utilizada até ser finalmente entregue ao governo argelino a 1 de Julho de 1967, o que levou a que os ensaios dos mísseis franceses fossem transferidos para Biscarosse, França, e os lançamentos orbitais fossem transferidos para Kourou, Guiana Francesa.

A plataforma de Bacchus estava localizada a 30,87 N – 3,07 O e foi utilizada para o lançamento dos foguetões sonda Agate, Belier, Centaure, Dragon, Rubis, Topaze e VE10 Aigle. A plataforma de Beatrice encontrava-se adjacente a Bacchus e foi utilizada para o lançamento dos veículos Cora. A plataforma de Bou Hammadi, localizada a 31,72 N – 3,07 O, foi utilizada para o lançamento dos foguetões sonda Centaure, Dragon e Veronique. A plataforma Blandine, 30,87 N – 3,07 O, foi utilizada para o lançamento do Veronique, Veronique 61 e Vesta. A plataforma Brigitte, localizada a 30,90 N – 3,07 O, foi utilizada para o lançamento dos veículos Agate, Diamant, Diamant-A, Emeraude, MSBS M1, Saphir, SSBS S1 e VE10 Aigle.

Lançamentos orbitais desde Hammaguir

O primeiro lançamento orbital desde Hammaguir teve lugar às 1447:21UTC do dia 26 de Novembro de 1965. Um foguetão Diamant-A (1) colocou em órbita o pequeno satélite Asterix-1 (01778 1965-096A), também designado A-1. Com este lançamento a França tornava-se o terceiro país a colocar em órbita um satélite utilizando o seu próprio lançador orbital. O satélite foi colocado numa órbita com um apogeu a 1.736 km de altitude, perigeu a 530 km de altitude, inclinação orbital de 34,3º e período orbital de 108,1 minutos.

Preparativos para o lançamento de um foguetão sonda Veronique desde Hammaguir em 1959. Imagem: CNES.

O Asterix-1 tinha uma forma de duplo cone com um diâmetro máximo de 0,53 metros e tinha como objectivo primário monitorizar a performance do seu lançador. Devido aos danos sofridos na antena durante o lançamento não foi recebida qualquer informação do satélite.

Em cima o pequeno satélite A-1, que posteriormente receberia a designação Asterix-1, no topo do seu foguetão lançador. O Diamant-A (1) seria lançado a 26 de Novembro de 1965 desde a plataforma Brigitte. Imagens: arquivo fotográfico do autor

A 17 de Fevereiro de 1966 (0833:36UTC) é lançado um foguetão Diamant-A (2) que coloca em órbita o satélite Diapason D-1A (02016 1966-013A). O satélite é colocado numa órbita com um apogeu a 2.484 km, perigeu a 502 km, uma inclinação orbital de 34,1º e um período orbital de 115,8 minutos.

O Diapason D-1A era um pequeno satélite cilíndrico com um comprimento de 0,20 metros e um diâmetro de 0,50 metros. A sua principal missão foi a realização de medições geodésicas através de observações utilizando o atraso Doppler nos sinais de rádio, além de fotografias do satélite tendo por fundo o campo estelar. O Diapason D-1A funcionou satisfatoriamente durante um período de cinco anos.

O terceiro lançamento orbital desde Hammaguir resultaria no primeiro fracasso parcial. A 8 de Fevereiro de 1967 (0939:39UTC) era lançado o foguetão Diamant-A (3) que colocaria em órbita o satélite Diademe D-1C (02674 1967-1967-011A). Devido a um problema no último estágio do foguetão lançador, o satélite Diademe D-1C ficaria colocado numa órbita mais baixa do que o previsto tendo um apogeu a 1.084 km, um perigeu a 545 km, uma inclinação orbital de 40,0º e um período orbital de 101,2 minutos.

O Diademe D-1C levou a cabo uma missão geodésica, sendo magneticamente estabilizado e contendo a bordo transmissores Doplper de dupla frequência e um conjunto de painéis retro reflectores consistindo em dois cones planos truncados com 77 cantos cúbicos para um total de 144. I satélite tinha uma massa de 23 kg.

Em cima o pequeno satélite A-1, que posteriormente receberia a designação Asterix-1, no topo do seu foguetão lançador. O Diamant-A (1) seria lançado a 26 de Novembro de 1965 desde a plataforma Brigitte. Imagens: arquivo fotográfico do autor

O lançamento do Diademe D-1C (imagem em baixo) antecedeu em uma semana o lançamento do satélite Diademe D-1D (02680 1967-14A). Este lançamento teve lugar às 1006:57UTC do dia 15 de Fevereiro e o foguetão Diamant-A (4) colocou o Diademe D-1D numa órbita com um apogeu a 1.733 km de altitude, um perigeu a 584 km de altitude, uma inclinação orbital de 39,4º e um período orbital de 108,5 minutos. O Diademe D-1D era em tudo semelhante ao Diademe D-1C.

O lançamento do Diademe D-1C viria a ser o último lançamento orbital a ter lugar desde Hammaguir dado que a jurisdição do polígono de lançamentos passou para a Argélia em 1 de Julho de 1967.

Um aspecto do lançador Diamant-A (3) na plataforma de lançamento Brigitte em Hammaguir momentos antes do seu lançamento. Imagem: arquivo fotográfico do autor.

O lançamento do Diamante-A (4) a 15 de Fevereiro de 1967 que colocaria em órbita o satélite Diademe D-1D. Imagem: arquivo fotográfico do autor.

 

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