A missão logística STS-127

A tripulação da missão STS-127 chegou ao Centro Espacial Kennedy no dia 8 de Junho de 2009. A sua presença e o início da contagem decrescente, às 1200UTC do dia 10 de Junho, eram os melhores sinais de que tudo corria bem na plataforma de lançamento onde se encontrava o vaivém espacial OV-105 Endeavour. A carga útil já se encontrava no seu sítio e os preparativos avançavam em direcção ao momento do lançamento, previsto para as 1117UTC do dia 13 de Junho. A direcção do programa não havia informado de qualquer problema e os sete astronautas estavam prontos para partir para a estação espacial internacional. A contagem decrescente, que se iniciou a T-43 horas, teria várias paragens para resolver qualquer problema. Porém, o Endeavour não poderia ser lançado no momento previsto devido ao aparecimento de uma fuga de hidrogénio no sistema de purga que elimina o excesso deste no tanque exterior e que o leva para longe da zona de lançamento. O problema, que já havia acontecido na missão STS-119, obrigou a adiar o lançamento em pelo menos 96 horas. A fuga acabou por ser resolvida com a troca da junta, apesar de não se ter descoberto exactamente a origem do problema. Durante o último lançamento, não surgiu qualquer dificuldade em relação à reparação, mas neste caso a fuga voltou a acontecer. Se o problema fosse resolvido, o Endeavour poderia ser lançado a partir de 17 de Junho, mas existia um conflito de disponibilidade das instalações terrestres dado que a NASA tinha previsto lançar a missão LRO/LCROSS.


De facto o Endeavour teve de aguardar pela nova oportunidade de lançamento dado que a data de 17 de Junho teve de ser abandonada devido à reparação das fugas de hidrogénio. A reparação com a troca das juntas no sistema pareciam dar sinais positivos a temperaturas normais, mas quando se iniciou o abastecimento do tanque exterior de combustível do Endeavour (com um ligeiro atraso devido à ocorrência de uma tempestade local) e se procedeu ao acondicionamento térmico das condutas, a fuga de hidrogénio voltou a aparecer. Foram levados a cabo trabalhos na válvula correspondente, mas rapidamente foi evidente que a falha não pode ria ser resolvida a tempo. A direcção do programa decidiu adiar então o lançamento. Mesmo que a reparação da fuga fosse rápida, a preferência devia agora ser dada à missão lunar e o tempo necessário para reconfigurar a instalações de terra após o seu lançamento não permitia ao Endeavour voar antes do fecho da janela de lançamento de Junho.

O lançamento do Endeavour foi assim adiado para a próxima janela de lançamento que se abria a 11 de Julho, adicionando um atraso notável nas missões posteriores. As últimas investigações dos engenheiros indicavam que a fuga de hidrogénio se deve a um mau alinhamento da placa que une a conduta de purga com o tanque exterior de combustível. Os técnicos fizeram medições, desmontaram a estrutura e voltaram a realinhá-la, e procederam à instalação de novas juntas e prepararam-se para novos testes.

Os testes de abastecimento acabaram por ser um êxito total e os técnicos não acharam qualquer fuga de hidrogénio. O teste foi levado a cabo a 1 de Julho e teve uma duração de três horas. Durante esse tempo teve-se o cuidado de observar com extrema atenção qualquer sinal de fuga de hidrogénio gasoso, sem que alguma fosse detectada. Foram utilizados vários sensores para medir as concentrações de hidrogénio, tendo só detectado pequeníssimas quantidades que costuma ser habituais (12 partes por milhão). Assim, e se as análises posteriores não o impedissem, a NASA daria luz verde para o lançamento do Endeavour na próxima data disponível: 11 de Julho., com o início da contagem decrescente a 8 de Julho. Dado que estava previsto o lançamento de um veículo de carga russo a 24 de Julho, o Endeavour teria só uma pequena margem de quatro dias a partir do dia 11 de Julho para proceder com o lançamento, caso contrário teria de aguardar até ao dia 27, acumulando-se assim outro atraso. O lançamento do vaivém espacial OV-104 Atlantis, cujo lançamento estava previsto para o dia 12 de Novembro, poderia ver-se adiado para princípios de Dezembro. No entanto, os técnicos encontraram outras dificuldades com este veículo. Durante a sua última missão, uma pequena peça que serve para fixar uma luz de trabalho começou a flutuar pela cabina e acabou encaixada entre uma das janelas e a estrutura da cabina, acabando por fixar mais a peça contra a janela dificultando a sua extracção. Isto foi conseguido voltando a pressurizar a cabina e arrefecendo a zona afectada. Os técnicos analisaram o estado da janela, pois caso esta tivesse ficado danificada teria de ser substituída o que implicaria mais um atraso adicional que poderia ser de seis meses.

Os sete astronautas da missão STS-127 regressavam à Florida a 7 de Julho a bordo de um avião Gulfstream procedente de Houston. Enquanto se levavam a cabo os últimos preparativos, a NASA estava confiante de que seria desta vez que conseguiria lançar o Endeavour para a estação espacial internacional. A contagem decrescente começaria a T-43 horas no dia 8 de Julho e o lançamento estava previsto para ter lugar às 2339UTC do dia 11. Porém, a NASA teve mais uma vez de adiar o lançamento nos dias 11 e 12.

A 10 de Julho uma forte tempestade eléctrica fez com que vários raios caíssem sobre a plataforma de lançamento e a agência decidiu suspender a contagem decrescente e ordenar aos técnicos que levassem a cabo uma revisão dos sistemas eléctricos. Tal revisão teria uma duração de 24 horas e seria impossível o lançamento no dia 11 tal como estava previsto. Até 11 raios caíram dentro de um perímetro de 500 metros em torno da plataforma de lançamento, incluindo alguns sobre ela. As estruturas da plataforma estão porém bem protegidas e não se encontraram danos. Nas horas seguintes as condições atmosféricas não melhoraram e a NASA teve de adiar de novo o lançamento devido a nuvens que cobriam a pista de aterragem do vaivém espacial. O lançamento poderia agora ter lugar às 2351UTC do dia 13 de Julho. Mas mais uma vez a meteorologia não colaborou no final da contagem decrescente e o lançamento foi de novo adiado. As nuvens e as tempestades eléctricas nas proximidades, violaram as regras de segurança e a NASA adiava de novo a partida do Endeavour. A próxima tentativa teria lugar às 2203UTC do dia 15 de Julho, quando as previsões eram melhores (apenas 40% de probabilidades da ocorrência de mau tempo). Apesar das tempestades e do mau tempo em geral, o céu da Florida viu-se sem nuvens a tempo de permitir o lançamento do Endeavour que ocorreu às 2203UTC. Oito minutos mais tarde a missão STS-127 (ISS-2J/A) entrava numa órbita preliminar, a qual foi mais tarde ajustada. Procedeu-se então à abertura das portas do porão de carga e a tripulação iniciou as comprovações de rotina relacionadas com o estado do vaivém espacial.

A ascensão orbital foi, como é hábito, seguida por câmaras a bordo e as imagens mostraram uma pouco usual quantidade de episódios de desprendimento do que parecia ser gelo e espuma isoladora do tanque exterior de combustível líquido. A NASA não se mostrou particularmente preocupada, mas mais tarde iria examinar o vídeo com toda a atenção. As condições de iluminação foram melhores que durante a maioria dos lançamentos anteriores, alguns dos quais foram realizados à noite, pelo que é de certa maneira normal que se tenham podido visualizar mais desprendimentos. A observação atenta das superfícies do Endeavour durante as horas seguintes, permitiria determinar se havia produzido algum tipo de dano.

Para além dos astronautas, o vaivém espacial transportava mais duas peças relacionadas com o segmento japonês do complexo orbital (o Kibo Exposed Facility e o Kibo ELM Exposed Section), assim como um par de pequenos satélites.

Depois do primeiro período de descanso, os astronautas do Endeavour dedicaram o seu primeiro dia completo em órbita a rever o estado das superfícies de protecção térmica. Antes, o vaivém espacial activou os seus motores de manobra para ajustar a sua órbita e situar a sua trajectória em direcção da estação espacial internacional. Também foram levados a cabo preparativos sobre esta manobra, como a instalação da câmara que facilitaria a manobra de acoplagem e a extensão do anel do sistema de acoplagem, além da revisão dos instrumentos auxiliares. Christopher Cassidy, Tomas Marshburn, David Wolf, Timothy Kopra e Julie Payette, seriam os astronautas que se ocupariam de operar o braço robot do Endeavour, uni-lo ao sistema OBSS e utilizá-lo para a inspecção do escudo térmico. A revisão, que duraria 5 horas, efectuar-se-ia com muita calma e detalhe. Durante a noite, os técnicos na Terra, estudaram o vídeo do lançamento e sobretudo as fotografias do tanque exterior de combustível líquido obtidas pelos astronautas e que mostravam danos na espuma isoladora. Certa zona do tanque mostrava várias secções longitudinais de espuma que havia sido arrancada, algo que não se havia visto até esta missão. À falta de uma análise mais profunda dos dados obtidos com o sistema OBSS, não parecia que o escudo térmico do vaivém espacial tivesse sofrido danos importantes devido aos impactos, de modo que o regresso deveria ser seguro. Os bordos das asas e o nariz do Endeavour, as zonas mais sensíveis, estavam em bom estado e somente se haviam detectado alguns rasgos noutras partes do escudo. Porém, os engenheiros da NASA teriam ainda de explicar porque razão nesta ocasião se haviam desprendido tantos pedaços de espuma e isso poderia afectar o calendário de lançamentos de forma considerável. Na prática, até que esta situação ficasse esclarecida, nenhum vaivém espacial deveria ser lançado pois mesmo com o regresso em segurança do Endeavour, isso não significaria que outros veículos possam ter a mesma ‘sorte’. A jornada do dia 17 de Julho esteve basicamente dedicada às tarefas de aproximação e encontro com a estação espacial internacional. Continuou-se com a preparação das ferramentas que se precisariam para a acoplagem e foi levada a cabo a manobra orbital derradeira para colocar o Endeavour na trajectória esperada.

Entretanto, na ISS, Gennady Padalka e Michael Barratt colocaram pronta a parafernália fotográfica que utilizariam para documentar o estado do escudo térmico do Endeavour durante a manobra de aproximação. De facto, chegado o momento, o Endeavour executou uma volta sobre si mesmo em frente da ISS, a cerca de 200 metros de distância, permitindo aos dois astronautas no interior da ISS fotografar o vaivém espacial. As imagens digitais obtidas seriam depois enviadas para a Terra para serem inspeccionadas.

O veículo percorreu os metros finais com o Comandante Polansky aos comandos e a acoplagem deu-se por fim às 1747UTC no porto frontal do módulo Harmony. Duas horas mais tarde, pelas 1948UTC, eram abertas as escotilhas entre os dois veículos e as tripulações encontravam-se finalmente. As 13 pessoas a bordo da ISS igualavam o recorde de pessoas em simultâneo em órbita. Depois da recepção e das informações de segurança a bordo, efectuou-se oficialmente a substituição de Koichi Wakata por Timothy Kopra como novo membro da Expedição 20 com o seu assento personalizado a ser instalado na cápsula Soyuz TMA. Wakata, já como Especialista de Missão, iria regressar à Terra a bordo do Endeavour. A seguinte actividade importante estaria centrada na primeira actividade extraveícular, mas antes, pelas 0035UTC do dia 18 de Julho, a órbita do complexo teve de ser ligeiramente modificada para evitar a passagem demasiado perto de um objecto desconhecido, provavelmente pertencente a uma missão militar. Para esta manobra foram utilizados os motores auxiliares do Endeavour durante 15 minutos. A velocidade foi modificada em apenas 0,8 m/s. Durante o dia 18 foram recebidas notícias relacionadas com o escudo térmico do vaivém espacial e que referiam que não seria necessária uma inspecção adicional, sinal de que os danos produzidos pelos desprendimentos de espuma isoladora do tanque exterior de combustível líquido eram menores.

Centrados no objectivo principal da missão, David Wolf e Timothy Kopra, que haviam dormido no interior do módulo Quest na noite anterior, iniciaram a primeira actividade extraveícular da missão STS-127 às 1613UTC com a despressurização do habitáculo. Cinco minutos mais tarde, ambos encontravam-se no exterior prontos para participar no processo de instalação da plataforma japonesa EF (JEM Exposed Facility) junto ao módulo pressurizado Kibo.

Em primeiro lugar, David Wolf retirou uma coberta térmica deste último e depois, Douglas Hurley e Koichi Wakata, que haviam utilizado o braço robot da estação espacial para agarrar a EF (às 1505UTC) e a levantar sobre o porão de carga do Endeavour (1759UTC). Mark Polansky e Julie Payette, utilizando o Canadarm, agarraram por sua vez a EF (1830UTC) e de seguida Wolf e Kopra supervisionaram as manobras, ocupando-se de seguida de retirar a estrutura UCCAS, no segmento P3, onde serão montadas experiências. Esta tarefa foi levada a cabo com ferramentas especiais, já que uma tentativa prévia em Março não teve sucesso. Os dois astronautas regressaram ao interior do módulo Quest às 2148UTC. A AEV teve uma duração de 5 horas e 32 minutos. Enquanto retiravam os seus fatos extraveículares, a plataforma EF foi levada até ao ponto de união com o módulo Kibo. Às 2247UTC ficava segura com ajuda do braço robótico japonês. Libertado o tempo que estava inicialmente reservado para uma revisão adicional do escudo térmico do Endeavour, os astronautas puderam dedicar o dia 19 de Julho a transferir mantimentos e equipamentos entre os dois veículos. Também prepararam a segunda AEV e utilizaram os braços robóticos para uma nova instalação no exterior do complexo orbital. Concretamente, procedeu-se à extracção da plataforma ICC-VLD (Integrated Cargo Carrier – Vertical Light Deployabel) que foi situada em um dos laterais do sistema móvel da estação. Em tal estrutura encontravam-se peças de substituição para vários sistemas da ISS, que durante a segunda actividade extraveícular David Wolf e Thomas Marshburn teriam que armazenar numa plataforma fixa. No módulo Kibo, foi ordenada a calibração do braço robot para sua utilização posterior, quando seria utilizado para transferir para a nova EF algumas das experiências exteriores instaladas de forma temporária.

Alguns dos astronautas participaram em experiências e na analise do ocorrido com a casa de banho (WHC) do segmento norte-americano. Uma válvula do sistema falhou a 19 de Julho após funcionar durante 15 minutos. Tal válvula, usada para introduzir uma dose correcta de substâncias no sistema, ajudando a separar resíduos líquidos de resíduos sólidos, deixou de operar, produzindo além do mais a contaminação do separador com cerca de 6 litros de água. A NASA ordenou que não se utilizasse a unidade enquanto se estudava como deveria ser levada a cabo a reparação. Até então, toda a tripulação da ISS deveria utilizar o WC do segmento russo, enquanto que os astronautas do Endeavour usariam o sistema do vaivém espacial.

O dia 20 de Julho estaria protagonizado pela segunda actividade extraveícular da missão STS-127 e por uma tentativa de reparação do WC do segmento norte-americano da estação. Seguindo as instruções do controlo de missão, Gennady Padalka e Frank De Winne substituíram alguns dos componentes do WC, em concreto a bomba do separador, o painel de controlo e o contentor de líquidos. Uma vez reactivado o sistema, verificou-se o seu perfeito funcionamento. Noutro lugar da estação, Timothy Kopra continuou o seu processo de acomodação ao complexo. O astronauta estava a familiarizar-se com o seu novo ambiente pouco a pouco.

No entanto, a actividade principal do dia seria a segunda AEV. David Wolf e Thomas Marshburn haviam passado a noite anterior no interior do módulo Quest a uma pressão mais baixo do que é normal, e já com os seus fatos extraveículares vestidos e as ferramentas prontas, dispuseram-se a sair ao exterior. Paralelamente, Julie Payette e outros companheiros activaram o braço robot da estação, o Canadarm2 que seria utilizado durante a excursão. A AEV teria lugar exactamente no mesmo dia de uma outra famosa actividade extraveícular ocorrida há 40 anos e na superfície lunar. A tripulação celebrou assim a primeira chegada do Homem à Lua. A segunda actividade extraveícular teve uma duração de 6 horas e 53 minutos com os astronautas a saírem do Quest às 1527UTC. De imediato, Wolf acedeu ao Integrated Cargo Carrier onde o seu objectivo seria transferir uma a uma, à mão, três unidades de substituição até à sua posição de armazenamento definitivo. Situado na extremidade do braço robot controlado por Payette e Hurley, David Wolf realizou várias viagens levando consigo a Ku-Band Space-to-Ground Antenna, o Pump Module e a Linear Drive Unit, que ficariam colocados, com a ajuda de Marshburn, numa plataforma (ESP-3) junto do segmento P3.

Outra tarefa realizada por Marshburn foi a instalação de um sistema de fixação num tanque de amoníaco de tal maneira que durante a missão STS-128, pudesse ser agarrado pelo braço robot e transferido. O próprio Marshburn colocou duas cobertas isolantes para ligações eléctricas externas no sistema que transfere energia da estação para o vaivém espacial.

A instalação de uma câmara no exterior do módulo japonês Kibo teve de ser adiada para uma actividade extraveícular posterior. O passeio espacial foi concluído às 2220UTC. Esta foi a sexta actividade extraveícular de David Wolf e a primeira de Thomas Marshburn. Após as duas primeiras excursões extraveículares, a tripulação do Endeavour e da estação dedicou o dia 21 de Julho a preparar a terceira AEV e a transferir outro elemento japonês até à sua posição junto do módulo Kibo.

Mark Polansky e Julie Payette utilizaram o Canadarm para extrair a plataforma Japanese Logistics Module-Exposed Section do porão de carga do vaivém espacial, e a transporta até ao Canadarm-2, que manipulado por Koichi Wakata e Doug Hurley, se encarregou de posicioná-la junto do Kibo. Nesta posição, o braço robot japonês ocupou-se de o transportar até à sua posição definitiva na plataforma externa do Kibo. Por sua parte, David Wolf e Charles Cassidy iniciaram os preparativos para a terceira actividade extraveícular. Tais preparativos incluíram a troca de baterias nos fatos extraveículares e a configuração das ferramentas necessárias. Pela noite, dormiriam no módulo Quest a uma pressão mais baixa para ajudar a eliminar o azoto da sua corrente sanguínea. Antes de terminar o dia, Polansky, Hurley, Payette e Wolf dedicaram-se a uns minutos a responder a perguntas enviadas pelo Twiter e YouTube. A tripulação desfrutou assim mesmo de algumas horas livres.

A terceira saída extraveícular da missão teria lugar a 22 de Julho. O seu principal objectivo seria a instalação de um primeiro grupo de baterias suplentes no segmento pertencente aos painéis solares mais antigos. David Wolf e Christopher Cassidy saíram do seu período de sono no módulo Quest e após o pequeno-almoço com o resto da tripulação iniciaram os preparativos finais para a sua saída para o exterior. Hurley e Payette haviam utilizado antecipadamente o braço robot Canadarm2 para transferir a plataforma Integrated Cargo Carrier, com as baterias, até às proximidades do segmento P6, onde trabalhariam os dois astronautas. O P6 foi transportado para a ISS em Novembro de 2000. A ICC foi mantida a uma certa distância do P6 para não interferir na rotação automática dos painéis solares que seguiam o Sol no céu. Para garantir a segurança dos astronautas, as baterias velhas foram descarregadas por completo durante os dias anteriores. A utilidade das baterias é clara: os painéis geram electricidade de forma contínua, mas deixam de o fazer quando se entra na zona de sombra da Terra. Por isso, é necessário carregá-las, para alimentar a estação quando o Sol não é visível.

Estando tudo pronto, Wolf e Cassidy saíram para o exterior às 1432UTC, mas a sua permanência no exterior não iria cumprir todos os objectivos. A AEV teve de ser interrompida antes do tempo previsto, quando o traje extraveícular de Cassidy deu sintomas de não estar a tratar adequadamente os níveis de CO2 procedentes da respiração do astronauta. Quando os níveis de CO2 subiram demasiado, a NASA ordenou o regresso ao interior da ISS (2031UTC), dando por terminada a AEV com uma duração total de 5 horas e 59 minutos. Durante esse tempo, os astronautas tiveram tempo para instalar somente duas novas baterias das seis previstas. Também retiraram cobertas isoladoras do módulo Kibo e prepararam as experiências da plataforma Japanese Exposed Section para a sua transferência para a Exposed Facility. Cassidy nunca esteve em perigo, mas os regulamentos obrigam a terminar a AEV se os níveis de CO2 ultrapassam um determinado limite de segurança.

A 23 de Julho, Wakata e Kopra inauguraram a utilização operacional do braço robot japonês instalado junto do módulo Kibo. Com a posterior ajuda de Polansky, Hurley e Payette, o braço robot levou a cabo a transladação das três experiências até à plataforma externa Japanese Exposed Facility. Porém, não foi uma operação simples. Apesar de se ter testado o braço robot anteriormente, a sua utilização automática foi suspensa devido a um movimento excessivamente rápido. Em modo natural, e com a devida paciência, as três experiências, o Monitor of All-sky X-ray Image, o Inter-orbit Communications System e a Space Environment Data Acquisition Equipment-Attached Payload, ficaram situadas nas suas posições de trabalho definitivas. Cumprida esta missão, os astronautas participaram numa conferência de imprensa com jornalistas norte-americanos. Também se preparou a quarta actividade extraveícular que seria dedicada à substituição das quatro últimas baterias no segmento P6. Para escapar do problema que elevou os níveis de CO2 no fato espacial de Cassidy durante a actividade extraveícular anterior, trocar-se-ia o dispositivo utilizado para eliminar este gás. Marshburn iria acompanhar Cassidy na nova excursão ao exterior da ISS.

Enquanto que as duas tripulações trabalhavam no estação espacial, na Terra era levado a cabo o lançamento de um novo veículo de carga russo. O Progress M-67 era lançado por um foguetão 11A511U Soyuz-U ás 1056UTC do dia 24 de Julho. A ascensão orbital foi perfeita e após entrar em órbita iniciou cinco dias de perseguição á ISS com a qual acoplaria a 29 de Julho com o Endeavour já de regresso a casa. A bordo do Progress M-67 seguiam mais de duas toneladas e meia de alimentos, combustível e outros equipamentos.

Cassidy e Marshburn despressurizaram o módulo Quest para a quarta saída para o espaço às 1345UTC do dia 24 de Julho. A AEV teria uma duração de 7 horas e 12 minutos, e seria totalmente coroada de êxito. Os dois astronautas finalizaram a tarefa de instalação de quatro baterias novas no segmento P6 e fixaram as velhas baterias na plataforma ICC par o seu transporte para a Terra. A ISS foi depois transferida para o porão de carga do Endeavour utilizando-se o Canadarm2 e o Canadarm. Os dois homens regressaram ao módulo Quest e procederam à sua repressurização às 2107UTC.

O dia 25 de Julho estaria principalmente dedicado ao descanso, superada que estava a primeira parte da missão do Endeavour. Apesar de tudo, alguns dos astronautas dedicaram uns minutos a responder a questões de várias cadeias de televisão. Entretanto da Terra informavam os astronautas que as novas baterias instaladas estavam a funcionar como previsto e que seriam integradas no sistema eléctrico da estação espacial no dia seguinte. A partir do dia 26 de Julho, os controladores na Terra tiveram de operar de forma manual o sistema americano de eliminação de CO2 (CDRA), dado que um dos seus dispositivos (o aquecedor primário) tinha falhado no dia anterior. Entretanto os astronautas Polansky, Hurley, Payette e Kopra utilizavam os braços robóticos canadianos para transferir para o porão de carga do Endeavour a plataforma japonesa JES, agora vazia. Ao mesmo tempo, Cassidy e Marshburn preparavam os fatos extraveículares e as ferramentas que iriam necessitar durante o quinto passeio espacial previsto para o dia 27 de Julho.

A quinta actividade extraveícular permitiu aos astronautas do Endeavour finalizar todas as tarefas pendentes no exterior da ISS. De facto, esta AEV já tinha sido programada deste modo, como uma comodidade e totalmente configurável para nela incluir qualquer trabalho procedente das actividades extraveículares anteriores devido à complexidade destas. Como sempre, Christopher Cassidy e Thomas Marshburn passaram a noite no módulo Quest, iniciando a última actividade extraveícular da missão às 1133UTC do dia 25 de Julho. Os dois astronautas iriam permanecer 4 horas e 54 minutos em AEV e durante este tempo instalaram duas câmaras de vídeo na plataforma japonesa JEF, uma na parte dianteira e outra na parte posterior. As câmaras serviriam para exibir imagens de alta definição que iriam facilitar a chegada e captura do futuro veículo logístico japonês, o HTV, cujo primeiro chegaria á ISS em Setembro. Os dois homens também fixaram as mantas isoladoras do robot Dextre, trabalharam nos sistemas de energia de dois dos giroscópios do complexo orbital, instalaram sistemas de fixação e outras ajudas para futuros passeios espaciais e colocaram em melhor posição um sistema de cabos. Outras das tarefas previstas, a separação do ponto de fixação PAS no segmento S3, foi deixada para outra ocasião.

Quando os dois astronautas regressaram ao interior do Quest, finalizando a AEV às 1627UTC, deram por terminada a actividade extraveícular número 130 dedicada à estação espacial internacional. Desde 1998, acumularam-se um total de 810 horas e 36 minutos no exterior, sendo 30 horas e 30 minutos o total de tempo em AEV levado a cabo pelos astronautas do Endeavour na missão STS-127.

Com todos os objectivos cumpridos e cinco actividades extraveículares realizadas, a tripulação do Endeavour iniciou os preparativos para o regresso à Terra. A 28 de Julho os astronautas terminaram a trasladação de mantimentos e equipamentos entre os dois veículos (incluindo amostras científicas), e prepararam as ferramentas que necessitariam para a manobra de separação e circunvalação em torno do complexo espacial. Koichi Wakata levou para o Endeavour os seus últimos utensílios pessoais pronto para abandonar a ISS depois de 133 dias em órbita. Por seu lado, Timothy Kopra, já familiarizado com a sua nova casa, ficaria com os membros da Expedição 20.

Antes da separação os astronautas verificaram que o dispositivo de eliminação de CO2 no segmento americano da ISS estava a funcionar correctamente em modo automático após uma actualização do software da unidade.

Com tudo pronto, as duas tripulações celebraram a cerimónia de despedida e poucos minutos depois fecharam as escotilhas dos dois respectivos veículos. Às 1638UTC, a estação ficava orientada correctamente para a separação do Endeavour e por fim, às 1726UTC, abriam-se os mecanismos do sistema de acoplagem e o vaivém espacial iniciava o seu lento afastamento em relação ao complexo orbital. O Piloto Douglas Hurley ocupar-se-ia da posterior manobra em torno na ISS, dando assim oportunidade para fotografar e gravar em vídeo a nova configuração da enorme estrutura espacial. A circunvalação foi levada a cabo a pouco mais de 130 metros de distância da ISS e uma vez finalizada, o Endeavour accionou os seus motores para começar o seu afastamento definitivo. As horas seguintes estariam dedicadas à revisão do escudo térmico e a preparar o regresso e a aterragem, enquanto que na ISS a tripulação concentraria a sua atenção para o novo veículo de carga Progress M-67 que se aproximava do complexo orbital.

Os astronautas do Endeavour dedicaram o dia 29 de Julho para inspeccionar o escudo térmico em busca de possíveis danos causados por impactos que pudessem ter ocorrido durante a sua permanência no espaço. Polansky, Payette e Hurley utilizaram o Canadarm equipado com o sistema OBSS para verificar as extremidades das superfícies aerodinâmicas e o nariz do vaivém espacial. As imagens obtidas com os sensores do OBSS foram depois enviadas para a Terra onde seriam analisadas.

À espera dos resultados, os astronautas dedicariam o resto do tempo a preparar o seu regresso à Terra e a rever os procedimentos para a libertação de dois pares de pequenos satélites previstas para o dia seguinte.

Entretanto, na estação espacial internacional, os membros da Expedição 20, encabeçada pelo Comandante Gennady Padalka, observou a aproximação e perfeita acoplagem da Progress M-67. A acoplagem teve lugar no modo dianteiro do módulo Zvezda às 1112UTC do dia 29 de Julho.

As principais actividades dos astronautas do Endeavour para do dia 30 de Julho seria a comprovação dos sistemas de controlo do vaivém espacial, para assim garantir o seu bom funcionamento durante o regresso, e a libertação dos satélites que se encontravam no porão de carga. Esta última operação foi levada a cabo sem qualquer problema, desde o ponto de vista da nave. Às 12:34UTC era libertado o satélite DRAGONSat (Dual RF Astrodynamic GPS Orbital Navigator Satellite) que consiste em dois pequenos satélites ‘cubesat’ com somente 1,5 kg de peso, construídos por estudantes. O primeiro é o BEVO-1, da Universidade do Texas, Austin, e o segundo é o Aggiesat-2, da Universidade Texas A&M. Inicialmente unidos entre si, deveriam ser separados utilizando-se duas molas para testar tecnologias de encontro automático em órbita através de GPS. Porém, a separação de ambos não ocorreu imediatamente, e os engenheiros implicados na missão tiveram de começar a analisar a situação.

Em relação ao segundo par de satélites, o dispositivo que os albergava foi libertado às 1723UTC e depois os satélites foram separados consecutivamente do seu interior com poucos segundos de diferença. A experiência chama-se ANDE-2 (Atmospheric Neutral Density Experiment-2) e consiste nos veículos Castor (ANDE Active) e Pollux (ANDE Passive). Foram utilizados para medir a densidade e a composição da atmosfera a grande altitude (entre os 100 km e os 400 km). Os seus movimentos seriam seguidos desde a Terra e serviriam para prever a queda e reentrada de objectos em órbita.

Dentro do Endeavour, Mark Polansky e Douglas Hurley, reviram as superfícies aerodinâmicas e os motores do vaivém espacial, encontrando-se em bom estado. Estava assim tudo pronto para a primeira tentativa de regresso à Terra para uma aterragem na Florida às 1448UTC do dia 31 de Julho.

Ao contrário da missão anterior, a aterragem do Endeavour pode ser realizada na primeira tentativa. A 31 de Julho era armazenada a antena de comunicações em banda Ku e eram fechadas as comportas do porão de carga do veículo. Pouco depois os motores de manobra orbital eram activados (1341UTC) para travar a sua velocidade orbital. Com os astronautas a envergar os seus fatos espaciais pressurizados e situados nos seus respectivos assentos (com Wakata a utilizar um assento especial reclinado), o veículo iniciava a descida em direcção à atmosfera terrestre. A aterragem ocorria às 1448:08UTC (trem de aterragem principal) com o trem de aterragem dianteiro a tocar na Pista RW15 do Centro Espacial Kennedy às 1448:21UTC e a imobilizar-se ás 1449:13UTC, concluindo assim uma viagem de 15 dias 16 horas 44 minutos e 58 segundos. Menos de uma hora após a aterragem os astronautas abandonavam o Endeavour e no dia seguinte viajavam para Houston.

Texto de Manuel Montes

Imagens NASA

Tradução e edição de Rui C. Barbosa

 

Comente este post

%d blogueiros gostam disto: