Gagarin – 55º aniversário do primeiro voo espacial tripulado (IV)



YuriGagarinVostok 30

Feliz Dia da Cosmonáutica!

O Boletim Em Órbita publica a última parte do artigo que assinala o 55º aniversário do primeiro voo espacial tripulado que foi lançado a 12 de Abril de 1961 e que tornou Yuri Gagarin no primeiro ser humano a viajar no espaço.

Gagarin – 55º aniversário do primeiro voo espacial tripulado (I)

Gagarin – 55º aniversário do primeiro voo espacial tripulado (II)

Gagarin – 55º aniversário do primeiro voo espacial tripulado (III)

Gagarin em Órbita

Após a missão do Korabl-Sputnik 5 Korolev regressou a Moscovo na noite do dia 28 de Março. Na tarde seguinte numa reunião da Comissão Estatal presidida pelo Presidente Rudnev, Korolev apresentou os resultados do programa Vostok completo e declarou a prontidão para lançar um humano para a órbita terrestre no próximo veículo Vostok 3A (o documento apresentado por Korolev tinha o título “Sobre o Estado do Trabalho Experimental”. Um segundo documento, intitulado “O Sistema de Orientação do Veículo satélite Vostok”, foi também assinado por Korolev no mesmo dia.). Mais tarde à noite, os principais membros da Comissão Estatal encontraram-se uma vez mais para escrever um documento formal requerendo a autorização do Partido Comunista para lançar um humano para o espaço. Pela primeira vez, um oficial de alta patente do Comité para a Segurança do Estado (KGB), o seu Primeiro Presidente Adjunto Petr I. Ivashutin, estava presente (Segundo Kamanin, os presentes nesta reunião eram S. P. Korolev (Desenhador Chefe do OKB-1), G. I. Voronin (Desenhador Chefe do OKB-124), S. M. Alekseyev (Desenhador Chefe da Fábrica n.º 918), L. I. Gusev (Desenhador Chefe do NII-695). M. V. Keldysh (Vice-presidente da Academia das Ciências da URSS), P. I. Ivashutin (Primeiro Presidente Adjunto do KGB), S. I. Rudenko (Primeiro Comandante em Chefe Adjunto da Força Aérea Soviética) e N. P. Kamanin (Chefe Adjunto do Grupo Geral da Força Aérea para as Preparações de Combate)). O memorando, endereçado ao Comité Central e classificado como ‘Absolutamente Secreto’, começava:

De acordo com o decreto do Comité Central do KPSS e do Concelho de Ministros da URSS de 11 de Outubro de 1960 sobre a preparação e lançamento de uma nave espacial com um humano, todos os trabalhos necessários para garantir um voo humano no espaço cósmico foram finalizados no tempo presente… Duas naves espaciais “Vostok-3A” foram preparadas para este propósito. A primeira nave está no local (de lançamento), e a segunda está a ser preparada para o lançamento. Seis cosmonautas estão preparados para o voo. A nave satélite com um humano a bordo será lançada para uma órbita da Terra e irá aterrar no território da União Soviética numa linha que vai desde Rostov – Kuybyshev – Pern.

Uma secção do documento detalhava os procedimentos de emergência em caso de eventos não previstos:

Para a órbita escolhida para a nave satélite, na eventualidade de avaria dos sistemas da nave para a aterragem na Terra, a nave pode descer devido à travagem natural da atmosfera após um período de 2 – 7 dias, com uma descida entre as latitudes de 65º Norte e Sul. Na eventualidade de uma aterragem forçada em território estrangeiro ou do resgate do cosmonauta por uma embarcação estrangeira, o cosmonauta tem instruções apropriadas. Adicionalmente a um abastecimento de emergência de dez dias de alimentos e água, a cabina do cosmonauta está equipada com um abastecimento de emergência de alimentos e água que irá durar 3 dias, e também com meios de rádio comunicações e com o transmissor ‘Peleng’ cujos sinais podem ser utilizados para determinar o local de aterragem do cosmonauta. A nave satélite não está equipada com um sistema para a destruição de emergência do Aparelho de Descida.

O assunto da instalação de um sistema de auto-destruição no veículo espacial foi discutido longamente durante o encontro. Todos os presentes, com a única excepção do representante do KGB Ivashutin, opuseram-se fortemente à inclusão de tal sistema num veículo pilotado. Ivashutin só desistiu quando todos os outros membros recusaram-se a concordar com a sua ideia. A Comissão Estatal também teve o cuidado de detalhar cuidadosamente a maneira de publicitar a missão nos media Soviéticos. Não houve a tentativa por parte dos membros em esconder ou mentir acerca de uma falha potencial, apesar do quase paranóico secretismo do programa espacial. Todas as tentativas foram feitas para dar precedência à segurança do cosmonauta sobre outras considerações políticas, tais como ter de admitir uma falha:

Consideramos que é aconselhável publicar o primeiro relatório da TASS imediatamente após a inserção orbital pelas seguintes razões:

  1. Se se torna necessário um salvamento, irá facilitar a sua rápida organização;
  2. Impossibilita qualquer governo estrangeiro de declarar que o cosmonauta é um espião com objectivos militares.

Se a nave satélite não entrar em órbita devido a velocidade insuficiente, pode descer no oceano. Neste caso, também consideramos aconselhável publicitar o relatório da TASS para assim facilitar o salvamento do cosmonauta.

Tinha havido discussões durante algum tempo sobre que designação das ao veículo espacial na imprensa. Um lado propôs reter o nome Korabl-Sputnik para a missão, meramente listando-a como a seguinte na série – isto é, o Sexto Korabl-Sputnik. Foi Tikhonravov que apaixonadamente argumentou que tal monumental missão não deveria ser referida por tal genérica designação. Em vez disso, ele propôs a divulgação do nome ultra secreto “Vostok” no relatório TASS. Korolev concordou e a Comissão Estatal ratificou a sua posição. O memorando da Comissão Estatal para o lançamento terminava com o seguinte: “Pedimos a permissão para lançar a primeira nave satélite Soviética com um humano a bordo e a aprovação para a preparação dos comunicados da TASS.” O voo foram agendado para entre 10 e 20 de Abril de 1961. O Documento foi assinado pelo Presidente da Comissão Militar Industrial Ustinov, pelo Presidente da Comissão Estatal Rudnev, pelos ‘ministros’ da industria de defesa Kalmykov, Dementyev e Butoma, pelo Académico Keldysh, pelo Comandante das Forças Estratégicas de Mísseis Moskalenko, pelo Comandante da Força Aérea Vershinin, pelo representante da Força Aérea Kamanin, pelo representante do KGB Ivashutin e pelo Desenhador Chefe Korolev. De notar que K. N. Rudnev era também o Presidente do Comité Estatal para as Tecnologias de Defesa, o ‘ministro’ que supervisionava os programas espaciais e de mísseis. V. D. Kalmykov era o Presidente do Comité Estatal para a Rádio Electrónica, P. V. Dementyev era o Presidente do Comité Estatal para as Tecnologias de Aviação, e B. Ye. Butoma era o Presidente do Comité Estatal para a Construção de Veículos. É aparente da lista que algumas alterações importantes tinham sido feitas desde o decreto original sobre a Vostok em Outubro de 1960. O Marechal Moskalenko havia tomado o cargo do falecido Marechal Nedelin como Comandante em Chefe das Forças Estratégicas de Mísseis, mantendo assim uma representação de alto nível do velho lobby militar. A Força Aérea tinha ganho em força com dois membros na comissão. O Comandante em Chefe Adjunto da Força Aérea Marechal Rudenko foi substituído em favor do Comandante em Chefe Marechal Vershinin e do Tenente General Kamanin. Rudenko estava, porém, estreitamente envolvido nos preparativos para o voo, mas a importância da missão talvez necessitasse da inclusão de Vershinin. A ‘promoção’ de Kamanin é notável em retrospectiva porque indica o seu rápido aumento de influência. Por óbvias razões de segurança, o representante do KGB Ivanishin foi incluído na comissão, e isto sublinha a importância com a qual o Partido Comunista via o projecto. As notáveis omissões do grupo central de Outubro de 1960 eram o Ministro Soviético da Defesa Malinovskiy, o antigo Presidente da Comissão Estatal para o Sputnik Presidente Ryabikov, e o resto do Conselho de Desenhadores Chefe. Malinovskiy provavelmente abandonou o seu papel para Moskalenko e Vershinin. A omissão de Ryabikov é algo confusa porque esteve envolvido no programa espacial e de mísseis desde 1946, ascendendo à elevada posição de topo de presidente do denominado Comité Especial em 1955, e assim supervisionando o seu antigo dirigente Ustinov. Com as alianças na indústria de defesa a serem constantemente alteradas, parece que o caminho de Ryabikov para o poder chegara a uma estagnação em 1960. Na altura da primeira missão Vostok, ele era o presidente do Conselho de Economia Nacional da República Socialista Soviética da Federação Russa, certamente uma ‘despromoção’ dos seus anteriores papéis na indústria de defesa.

O memorando foi oficialmente endereçado ao Comité Central do Partido Comunista, que em papel era composto por um grande grupo de indivíduos. Na prática, porém, e em especial no caso de um projecto de tão alta prioridade, somente dois indivíduos estiveram envolvidos na autorização final: Nikita S. Khrushchev e Frol R. Kozlov. O último havia herdado a posição de topo mo Partido Comunista para os sectores do espaço, mísseis e da defesa no Secretaria do em Julho de 1960 (de notar que a nomeação de Kozlov para o Secretaria do foi anunciada a 5 de Maio de 1960, apesar do seu predecessor Brezhnev não ter sido formalmente liberado do cargo até Julho de 1960). A partir daí, como membro do ‘gabinete’ do Partido responsável por importantes decisões políticas no programa espacial, Kozlov só tinha uma pessoa que podia anular a sua palavra. Como novo Secretário do Comité Central para a defesa e espaço, ele ajudaria a definir e reforçar uma posição que havia sido tratada de forma desigual pelo seu predecessor Leonid Brezhnev, que após a promoção de Kozlov se viu num posto largamente cerimonial.

A 3 de Abril, três dias após a recepção do memorando da Comissão Estatal, o seguinte ‘Estritamente Secreto’ decreto intitulado “Acerca do Lançamento da Nave Espacial Satélite” foi emitido pelo Presidium (mais tarde Politburo) do Comité Central:

1. A proposta de Ustinov, Rudnev, kalmykov, Dementyev, Butoma, Moskalenko, Vershinin, Keldysh, Ivashutin, e Korolev acerca do lançamento da nave satélite “Vostok 3A” com um cosmonauta a bordo.
2. os planos para o comunicado da TASS para anunciar o lançamento da nave espacial com um cosmonauta a bordo de um satélite da Terra é aprovado, e garante à Comissão para o Lançamento o direito, se necessário, de introduzir actualizações acerca dos resultados do lançamento e à Comissão do Presidum do Concelho de Ministros da URSS para os Assuntos Militares Industriais, o direito de o publicitar (note-se a curiosa omissão do nome de Kamanin no decreto do Partido Comunista, apesar de ele ser um signatário do pedido original. A Comissão do Presidum do Concelho de Ministros da URSS para os Assuntos Militares Industriais era mais usualmente conhecida como a Comissão Militar Industrial – VPK).

O actual comunicado da TASS foi autorizado pelo NII-4 militar sobre a supervisão do Director Adjunto do instituto Coronel Yuri A. Mozzhorin. A preparação do relatório noticioso foi um processo estranhamento surreal, tal como recordou Mozzhorin anos mais tarde:

Para não se perder tempo a escrever e transmitir os textos necessários para os comunicados na rádio e televisão, esses comunicados foram preparados no nosso instituto, com o acordo de S. P. Korolev e da liderança, e enviados de ante mão para as rádios, televisões e para a TASS em envelopes selados. No caso (do cosmonauta) entrar com sucesso em órbita, eles receberiam um sinal autorizando-os a abrir e a anotar os parâmetros orbitais (que seriam comunicados) por telefone, e a informação seria então tornada pública internacionalmente. Existiam também mais dois pacotes de material juntamente com o envelope (referido em cima) … com … comunicados para resultados imprevistos. (O primeiro era) breve – na eventualidade da morte do cosmonauta durante a inserção orbital ou durante o lançamento. O segundo seria utilizado no caso de não ter atingido a órbita, mas tendo aterrado em algum território estrangeiro ou nas regiões equatoriais dos oceanos mundiais. Este continha um apelo a todos os governos, em particular ao governo do território no qual o cosmonauta havia aterrado, requerendo a assistência necessária para a (sua) busca e regresso.

A aprovação oficial do Partido Comunista para o lançamento pode ter sido de facto o último passo para ter um humano no espaço, mas os problemas técnicos com o veículo espacial Vostok continuaram a ameaçar a possibilidade de um lançamento na hora prevista. A 24 de Março, o OKB-124, responsável pelo sistema de suporte de vida, anunciou num encontro da Comissão estatal que existiam sérias limitações nas unidades de secagem do ar condicionado do veículo espacial Vostok 3A. Testes de longa duração levados a cabo no Instituto de Aviação e Medicina Espacial haviam provado que lignina impregnada no sistema havia começado a verter após absorver uma certa quantidade de humidade, resultando na formação de grandes quantidades de salmoura no interior do veículo espacial. Numa segunda reunião a 28 de Março, o Desenhador Chefe do OKB-124 Voronin defendeu de forma veemente o seu sistema, afirmando que o cloreto de lítio seria inofensivo para o cosmonauta. Uma proposta competidora pelo médico do instituto Abram M. Genin para utilizar um novo sistema de secagem no veículo foi tema de muito debate.

O problema com o sistema de suporte de vida permaneceu sem resolução quando Korolev voou para Baikonur desde Moscovo ao final do dia 3 de Abril. Os seis cosmonautas principais chegaram na tarde do dia 5 de Abril como parte de um grupo de três aviões Iliyushin Il-14 fretados, seguidos pelo Presidente da Comissão Estatal Rudnev no dia seguinte. Deixando para trás as suas esposas em Moscovo, os cosmonautas foram instruídos para dizer às suas esposas de que o lançamento estava previsto para 14 de Abril, três dias mais tarde do que actualmente pretendido – para reduzir a preocupação. A primeira reunião da totalidade da Comissão estatal em Baikonur teve lugar imediatamente após a chegada de Rudnev, às 08:30UTC, com o principal tema de discussão a ser o sistema de suporte de vida e os resultados dos testes adicionais do fato espacial e do sistema de ejecção. O Desenhador Chefe Voronin relatou, de certa forma pouco convincente, que a suspeitosa unidade de secagem estava completamente pronta para uma missão de contingência de dez dias. Devido ao facto de uma missão nominal ter uma duração de somente uma hora e meia, as preocupações foram de certa forma aliviadas; simplesmente não haveria tempo suficiente para a formação de salmoura no interior do veículo espacial. A comissão também aprovou a proposta do treinador dos cosmonautas Mark L. Gallay para que os candidatos levassem a cabo sessões de treino no actual veículo espacial que um deles iria pilotar em vez de um veículo suplente. Estes testes foram realizados a 7 de Abril sem qualquer incidente por Gagarin e Titov, então os principais candidatos para o voo. Nelyubov, o terceiro candidato, estava considerado fora da corrida.

A Comissão estatal conclusivamente abordou a questão de quem iria voar a primeira missão numa reunião a 8 de Abril. O Tenente General Kamanin, como supervisor da equipa de cosmonautas, teve um papel importante na selecção de Gagarin. Tanto Gagarin como Titov haviam desempenhado sem qualquer falha durante os treinos, com Gagarin a ter uma ligeira vantagem sobre Titov nos exames de Janeiro de 1961. Apear de Gagarin ser um favorito marginal, Kamanin começou a inclinar-se para Titov nos dias finais antes do lançamento. A 5 de Abril, ele escreveu no seu diário:

Ambos são excelentes candidatos, mas nos últimos dias eu ouço mais e mais pessoas a falar em favor de Titov e a minha confiança pessoal nele está também a crescer … A única coisa que me impede de escolher (Titov) é a necessidade de ter uma pessoa forte para a (segunda) missão de um dia.

Enquanto Kamanin possa ele mesmo ter sido uma peça importante na selecção, existiu muita especulação no Ocidente de que a escolha final fora de facto feita por ‘ordens superiores’ como seria de esperar numa sociedade altamente centralizada tal como a União Soviética. Dias antes do lançamento, foram evidentemente enviadas fotografias e biografias de Gagarin e de Titov para o Departamento do Defesa do Comité Central, o gestor do programa espacial. Cada candidato tinha duas fotos, uma em roupas civis e uma em uniforme militar. Aqui, um variado número de apparatchiks consultou os seus registos e relatou a Ivan D. Serbin, o temido dirigente do Departamento de Defesa. Serbin mostrou então as fotografias a Kozlov, que por sua vez as mostrou a Khrushchev. Após ver as fotografias, o líder Soviético terá dito: “Ambos são excelentes! Eles que decidam por eles próprios!” Um notável historiador aeroespacial Russo, Yaroslav K. Golovanov, sugeriu que a única razão para um procedimento tão complicado foi o facto de simplesmente permitir aos apparatchiks do Partido serem capazes de dizer que a decisão foi tomada “ao mais alto nível”.

Gagarin00018No final, na reunião da Comissão Estatal de 8 de Abril, Kamanin levantou-se e formalmente nomeou Gagarin como o piloto principal e Titov o seu suplente. Sem muita discussão, a comissão aprovou a proposta e avançou para outros assuntos logísticos de última hora. Era assumido que na eventualidade de Gagarin desenvolver problemas de saúde antes do lançamento, Titov tomaria o seu lugar, com Nelyubov a servir como seu suplente. A data de lançamento foi limitada na reunião entre 11 ou 12 de Abril. Os parâmetros orbitais seriam de 180 km por 230 km, e a missão duraria uma única órbita. Deu-se alguma discussão sobre a ideia de Gagarin00019registar a missão como um recorde mundial absoluto. No interesse da manutenção do sempre patente secretismo, alguns membros da comissão, em particular Moskalenko e Keldysh, opuseram-se ao envolvimento de comissionários desportivos. No final, a comissão decidiu não divulgar o local de lançamento nem o tipo de veículo lançador, mas preencher os documentos junto das organizações internacionais para estabelecer um recorde mundial. Apesar da missão ser completamente automática, os membros da comissão propuseram dar num envelope ao cosmonauta os códigos para desbloquear o sistema de orientação manual para Gagarin00020a reentrada. Em caso de avaria do sistema automático, o cosmonauta iria abrir o envelope selado e activar o sistema manual. A reunião terminou com a decisão de levar a cabo uma última sessão, mais uma formalidade, dois dias mais tarde.

No dia seguinte, Kamanin convidou Gagarin e Titov para um encontro privado no seu escritório e anunciou então que Gagarin iria voar e que Titov iria servir como seu suplente. Quando questionado anos mais tarde como se sentiu, Titov respondeu, “Porquê perguntar? Doloroso ou não – era no mínimo desconfortável.” Os dois homens relaxaram o resto do dia à medida que os procedimentos Gagarin00005pré-lançamento para o foguetão 8K72K continuavam no Edifício de Montagem e Teste. Notavelmente, Korolev e os seus principais adjuntos Mishin e Chertok estavam ao mesmo tempo envolvidos no primeiro lançamento crítico do novo ICBM R-9 a partir do complexo 51. Era um programa de extrema alta prioridade não só para o OKB-1 mas para a União Soviética como um todo, e pode-se imaginar a intensidade das operações no cosmódromo durante a segunda semana de Abril de 1961. O primeiro lançamento do R-9 teve lugar a 9 de Abril (o lançamento do míssil 8K75 (E103-08) teve lugar às 09:16UTC a partir do Complexo Gagarin0000651/5), somente três dias antes do lançamento de Gagarin do complexo 1.

No dia seguinte às 08:00UTC, teve lugar uma grade reunião da Comissão Estatal num local com vista para as margens do majestoso Rio Syr Darya. Esta sessão foi simplesmente uma formalidade, primariamente para a imprensa Soviética, mas foi aberta a muitos trabalhadores curiosos que ainda não tinha tido a oportunidade de ver os cosmonautas. Presentes estavam setenta pessoas, incluindo os desenhadores chefe (tais como Korolev, Glushko, Pilyugin, Barmin, Ryazanskiy, Kuznetsov, Isayev, Kosberg, Alekseyev, Voronin, Gagarin00008Bykov e Bogomolov), ministros, oficiais da Força Aérea, oficiais das Forças Estratégicas de Mísseis, e representantes do Partido Comunista e da Academia de Ciências, bem como os seis cosmonautas principais. O Desenhador Chefe Korolev, o Presidente da Comissão Rudnev, o Comandante das Forças Estratégicas de Mísseis Moskalenko, e o Director do Centro de treino de Cosmonautas Karpov, todos fizeram curtas mas dramáticas apresentações sobre a iminente missão, seguidos de discursos de agradecimento por Gagarin, Titov e Nelyubov. No final, Kamanin evidenciou Gagarin que se tornaria no primeiro humano a ir ao espaço. O jovem cosmonauta proferiu um discurso de aceitação, que foi interrompido a meio quando um operador de cinema fez saber que o seu filme tinha inadvertidamente terminado. Gagarin repetiu todo o seu discurso para que pudesse ser gravado de novo. Na madrugada, o foguetão 8K72K foi transportado para a plataforma de lançamento no complexo 1. O lançamento foi marcado para a manhã do dia 12 de Abril de 1961. Os engenheiros haviam calculado a hora exacta do lançamento, 06:07UTC, dado que permitiria a melhor iluminação solar para os sensores do sistema de orientação algures sobre África mesmo antes da retrotravagem.

Gagarin00011No dia anterior ao lançamento, os engenheiros do OKB-1 Raushenbakh e Feoktistov instruíram Gagarin e Titov durante uma hora sobre vários eventos da missão, Raushenbakh recordou mais tarde que ele ainda tinha dificuldade em se aperceber da magnitude do que estava para acontecer:

“Eu olhei (para Gagarin) e na minha mente eu compreendi que amanhã este rapaz iria acordar o mundo inteiro. Mas ao mesmo tempo eu não conseguia acreditar que amanhã alguma coisa iria acontecer que o mundo nunca havia visto – que este Primeiro-tenente sentando à minha frente iria amanhã tornar-se o símbolo de uma nova época. Eu comecei por dar-lhe instruções, tais Gagarin00013como, “Liga isto, não te esqueças de ligar isto,” – todas estas observações normais e até mundanas, e então eu fiquei silencioso e algum tipo de impulso interno começou-me a sussurrar, “Isto é um monte de tretas. Tu sabes bem que nada disto vai acontecer amanha.”

Sendo o centro de tudo, os cosmonautas estavam talvez menos conscientes da sua centralidade neste vértex de eventos. Testemunhas lembram-se de Gagarin a sorrir todo o dia, feliz por ter sido o escolhido para a missão. Os cosmonautas também visitaram a plataforma de lançamento para conhecer os jovens soldados, oficiais e sargentos que haviam trabalhado no foguetão nos últimos dias. Foi uma pragmática movimentação de gestão – uma que não só elevou a moral entre os trabalhadores de baixa patente, mas também teve um papel em incutir um sentido de responsabilidade, tanto entre os cosmonautas como nas equipas de trabalho. A Gagarin e Titov foram atribuídas pequenas casas perto da área da plataforma. Essa noite tomaram uma ligeira refeição Gagarin00015com, o Tenente General Kamanin e estavam a deitar-se pelas 1830UTC quando Korolev calmamente os visitou para verificar o estado dos dois homens. Os médicos fixaram sensores em ambos os cosmonautas para monitorizar os seus sistemas vitais durante a noite. Adicionalmente, e desconhecido para ambos, calibradores de tensão haviam sido fixados às suas camas para verificar se ambos haviam tido uma noite calma ou se haviam revoltado e mexido muito nas camas (os médicos principais responsáveis por Gagarin e Titov na altura eram I. T. Akulinichev e A. R. Kotovskaya. Os calibradores de tensão foram desenhados pelos Gagarin00016engenheiros I. S. Shadrintsev e F. D. Gorbov.). Ambos os homens acabaram por ter um sono notavelmente pacífico.

Korolev não dormiu de todo nessa noite. Entre as suas maiores preocupações, talvez a que mais o incomodava era a perspectiva de uma falha no terceiro estágio do foguetão durante a ascensão para a órbita, depositando o veículo espacial Vostok no oceano perto do Cabo Horn na ponta da América do Sul, um local infame devido às constantes tempestades. O Desenhador Chefe exigiu que houvesse um sistema de transmissão de telemetria no centro de controlo em Baikonur para Gagarin00017confirmar que o terceiro estágio havia funcionado como planeado. Se o motor funcionasse de forma nominal, a telemetria iria imprimir uma série de ‘cincos’; caso contrário, seria imprimida uma série de ‘dois’. Apesar de todas as precauções, todos os testes, e todos os preparativos, Korolev ainda tinha as suas dúvidas. Um oficial militar recorda que “Por alguma razão, era somente o Cabo Horn que não dava a Korolev um momento de descanso.

 

As operações de pré-lançamento no complexo 1 iniciaram-se às 00:00UTC do dia 12 de Abril, mesmo antes do amanhecer, quando os controladores começaram a tomar os seus lugares nas estações de controlo não só em Baikonur, mas em toda a União Soviética. Uma muito curta reunião da Comissão Estatal para verificar que tudo estava pronto teve lugar às 03:00UTC e terminou com a conclusão de “tudo preparado”, após a qual os membros dispersaram-se para as suas várias funções. Gagarin e Titov haviam sido acordados Gagarin00025meia hora antes pelo Director do Centro de Treino de Cosmonautas Karpov que os presenteou com um ramo de flores silvestres, um presente de uma mulher que previamente havia habitado naquela casa. Após um curto pequeno-almoço com comida de um tubo (pasta de carne, marmelada e café), um grupo de médicos liderados por Yazdovskiy, quase dez anos após ter dirigido o primeiro voo histórico de cães dos desertos de Kapustin Yar, examinou os cosmonautas. Dois assistentes ajudaram Gagarin e Titov a vestirem os seus volumosos fatos espaciais Sokol – primeiro, um fato pressurizado azul, seguido de uma cobertura cor de laranja. Titov foi o primeiro a vestir-se para assim impedir que Gagarin00026Gagarin sobreaquecesse dado que os fatos dependiam de uma fonte de energia externa para os seus ventiladores, que somente se encontravam no autocarro de transporte. Uma hora após despertarem, ambos os cosmonautas estavam no autocarro, acompanhados por outros onze indivíduos, incluindo os cosmonautas Nelyubov e Nikolayev e dois operadores de vídeo que gravaram toda a viagem (para além de Nelyubov e Nikolayev, estavam no autocarro o Director do TsPK Ye. A. Karpov, o Desenhador Chefe da Fábrica n.º 918 S. M. Alekseyev, F. A. Vostokov, V. I. Svershchek, G. S. Petrushin, Yu. D. Kilosanidez (todos da Fábrica n.º 918), o médico L. G. Golovkin e os cameraman V. A. Suvorov e A. M. Filippov.).

Gagarin00028A viagem foi curta, e aparentemente ocorreram conversações alegres entre Gagarin e os outros. Numerosas fotografias dessa curta viagem mostram por vezes um Gagarin pensativo, convenientemente pouco afectado por ser o centro de tal empreendimento.

Ao chegar à plataforma, Gagarin e Titov foram saudados por Korolev, Keldysh, Kamanin, Moskalenko, pelo Presidente da Comissão Estatal Rudnev, e por outros oficiais. Korolev parecia fatigado e cansado enquanto calmamente observava Gagarin00029Gagarin nas suas despedidas finais. Á medida que os observadores rondavam Gagarin, este virou-se para Rudnev e anunciou brevemente que estava pronto para a missão. Um dos mais duradouros mitos do voo era o de que antes de tomar o elevador até ao topo do foguetão, Gagarin teria feito um discurso de despedida. Os jornalistas da era Soviética durante anos superaram-se a si mesmos ao juntar e a embelezar referências de tal discurso de Gagarin com floreados melodramáticos tais como “Eu fui tomado por uma total elevação das minhas forças espirituais, como todo o meu ser eu escutei a música da natureza…” até este dia, os documentários usualmente exibidos mostram Gagarin a falar para a multidão reunida na base do Gagarin00030foguetão, mas este discurso foi de facto gravado muito mais cedo, em Moscovo, quando Gagarin foi essencialmente forçado a dizer uma torrente de banalidades preparadas por anónimos escritores de discursos. Foram também gravados discursos similares por Titov e Nelyubov (o discurso já preparado incluía o seguinte: “Caros amigos, que estais junto de mim, e a vocês que não conheço, caros Russos, e às pessoas de todos os países e de todos os continentes: Em poucos minutos um poderoso veículo espacial irá me transportar para os distantes domínios do espaço. O que vos posso dizer neste minutos finais antes do lançamento? Toda a minha vida parece-me como um lindo momento. Tudo o que anteriormente vivi e fiz, foi vivido e sentido para este momento.”). Após os últimos abraços com Rudnev, Moskalenko e Korolev, Gagarin foi escoltado para o elevador de serviço onde parou e saudou excitadamente uma última vez antes da ascensão de dois minuto até ao topo. Titov foi deixado para trás, separando assim os futuros destes dois homens – um para a História outro para a Posteridade.

YuriGagarinVostok 2

YuriGagarinVostok 3

O principal desenhador da Vostok, Oleg G. Ivanovskiy, ajudou Gagarin a entrar no veículo espacial, que activou o sistema de comunicações por rádio às 0410UTC. Nas duas horas seguintes, ele conversou efusivamente com Korolev e com o cosmonauta Popovich, ‘capcom’ da missão. Kamanin, o Desenhador Chefe Bykov e o Presidente da Comissão Rudnev, também desejaram ao cosmonauta uma boa viagem. O principal bunker de comando, composto por várias salas, estava perto da plataforma de lançamento. No dia do lançamento, foi colocada na sala principal uma pequena mesa com uma manta verde especialmente para Korolev. Aqui estava um rádio transmissor receptor e um único telefone vermelho para fornecer a palavra passe que catapultaria o cosmonauta em caso de emergência durante os primeiros quarenta segundos do lançamento. Somente três pessoas conheciam a palavra passe: Korolev, o seu Adjunto Leonid A. Voskresenskiy e o Coronel Anatoliy S. Kirillov, um oficial das Forças Estratégicas de Mísseis que havia sido recentemente nomeado para YuriGagarinVostok 4dirigir o Primeiro Directorado em Baikonur – isto é, a divisão responsável pelas operações de voo. O seu predecessor havia sido morto no recente desastre com o R-16. Para Voskresenskiy, era a culminação de uma longa carreira como adjunto de Korolev para os testes de voo. As suas façanhas nos testes dos mísseis alemães A-4 em Kapustin Yar nos anos 40 haviam-se tornado parte de uma lenda. Para além de Korolev, Voskresenskiy e Kirillov, os três homens primariamente responsáveis pela direcção do lançamento, outros presentes na sala principal incluíam Mark L. Gallay, o reconhecido pilote de teste Soviético que havia assistido o treino dos cosmonautas. Korolev aparentemente havia permitido a sua presença para testemunhar o lançamento não pelas suas capacidades como piloto, mas porque Gallay era um escritor famoso – um que podia escrever a crónica dos eventos para aqueles que não tinham tido a sorte de estarem presentes. A maior parte dos membros da Comissão Estatal, bem como engenheiros seniores tais como Glushko e Feoktistov, estavam alojados numa segunda sala denominada a ‘sala de convidados’ do bunker. Numa terceira sala, o Desenhador Chefe Ryazanskiy actuava como Gagarin00035dirigente dos sistemas de telemetria (outros na sala principal incluíam o engenheiro do OKB-1 B. A. Dorofeyev, o oficial da Força Aérea N. P. Kamanin, o Desenhador Chefe do NII-85 N. A. Pilyugin, o cosmonauta ‘capcom’ P. R. Popovich e o Desenhador Chefe Adjunto V. P. Finogenov.). O nome código de Gagarin era ‘Kedr’ (‘Cedro’), enquanto que o nome código do solo era ‘Zaria-1’ (‘Amanhecer-1’), provavelmente assim escolhido devido à mesma designação do sistema primário de comunicações por voz na Vostok.

Gagarin00037Às 04:50UTC a escotilha foi fechada, mas dos contactos indicava que não havia sido pressionado como deveria. Três engenheiros no topo do foguetão removeram todos os trinta parafusos na escotilha e fecharam-na uma segunda vez, com todos os indicadores a darem sinais positivos. Esta acção demorou quase uma hora, e os técnicos finalmente deixaram a vizinhança do veículo cerca de trinta minuto antes do lançamento. Um excerto das comunicações entre Kedr e Zarya-1 mostra que apesar dos riscos envolvidos, havia tentativas para aliviar alguma tensão:

05:14UTC

Gagarin00043Popovich: Yuri, não estás enfadado aí, pois não?

Gagarin: Se houvesse música, aguentava-se melhor.

Popovich: Um minuto.

05:15UTC

Korolev: Estação Zarya, aqui Zarya-1. Cumpram o pedido de Kedr. Dêem-lhe alguma música, dêem-lhe alguma música

Popovich: Ouviste isso? Zarya responde: Vamos tentar cumprir o teu pedido. Tenhamos alguma música ou ele fica enfadado.

05:17UTC

Popovich: Bem, que tal está? Já há música?

Gagarin: Nada de música ainda, mas espero que haja rápido.

Korolev: Bem, eles deram-te música, certo?

Gagarin: Ainda não.

05:19UTC

Korolev: Claro, é a maneira de ser dos músicos; agora estão aqui, agora estão ali, mas não fazem, nada muito depressa, como diz o ditado, Yuri Alekseyevich.

Gagarin: Deram-me canções de amor.

A T (lançamento) menos quinze minutos, Gagarin calçou as suas luvas e dez minutos mais tarde fechou o seu capacete. A torre foi afastada da plataforma ao mesmo tempo. Nesta altura, a tensão subia claramente, e Korolev e Voskresenskiy tomaram ambos calmantes para relaxar os seus corações. O registo do foguetão 8K72K não era algo que instilasse confiança. Até aquela altura tinham ocorrido dezasseis lançamentos do R-7 com a combinação do estágio superior Blok Ye, tal como a que iria enviar Gagarin para a órbita. Destes dezasseis lançamentos, seis haviam falhado devido a problemas no R-7, enquanto que dois haviam falhado devido ao Blok Ye, isto é um rácio de sucesso de exactamente 50%. No caso dos sete veículos Vostok que voaram, dois veículos não YuriGagarinVostok 5haviam atingido a órbita terrestre devido a problemas no foguetão, enquanto que outros dois não haviam completado as suas missões. Para um empreendimento que na teoria requeria uma garantia de 100% de sucesso, se o registo anterior era alguma indicação, o potencial para um acidente era significativo na missão de Gagarin.

Enquanto que Korolev e Voskresenskiy necessitavam de calmantes, Gagarin, afastado de certa forma do rebuliço de actividade, estava calmo como nunca:

05:41UTC

YuriGagarinVostok 6Kamanin: Estás-me a ouvir bem?

Gagarin: Eu ouço-te bem. Como me ouves?

Kamanin: A tua pulsação é de 64, respiração 24. Tudo corre normalmente.

A pulsação de Gagarin chegaria a umas excitadas 157 batidas por minutos segundos antes do lançamento, apesar do seu tom permanecer completamente calmo. Finalmente, exactamente às 06:06:59,7UTC do dia 12 de Abril de 1961, o veículo espacial Vostok era lançado (a Vostok-1 (00103 1961-012A 1961 Mu 1) foi lançada pelo foguetão 8K72K Vostok (E103-16)) com o seu passageiro de 27 anos de idade, o Tenente Sénior Yuri Alekseyevich Gagarin. A sua primeira exuberante expressão foi “Poyekhali!” (“Aqui vamos!”).

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Korolev, Voskresenskiy e Kirillov tinham os códigos para abortar a missão caso o foguetão 8K72K não conseguisse uma performance nominal, mas a trajectória de lançamento era a prevista. Nos primeiros minutos após o lançamento, Gagarin referiu que sentia a carga gravítica da aceleração no seu corpo, mas não deu qualquer indicação de alguma falta de conforto. De facto, mantinha o bom humor:

06:09UTC

Korolev: T mais 100. Como te sentes?

Gagarin: Eu sinto-me bem. Como te sentes?

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A T+119 segundos, os quatro propulsores laterais na base do R-7 separaram-se, permitindo ao estágio central continuar a sua queima. A carenagem de protecção separou-se do veículo espacial Vostok exactamente cinquenta segundos mais tarde como planeado. A cerca de cinco g, Gagarin relatou alguma dificuldade em falar, referindo que todos os músculos na sua face estavam esticados e tensos. A carga gravítica aumentou lentamente até que o estágio central do foguetão cessou a sua operação e se separou a T+300 segundos. Após a separação do estágio já gasto e dos propulsores laterais, o motor RD-0109 do estágio superior entrou em ignição para acelerar a nave para a velocidade orbital.

Korolev estava literalmente a tremer ao longo de todo este processo, tendo-se obcecado com a possibilidade de descer no oceano a Sul do Cabo Horn em caso de falha do estágio superior. A telemetria começou a emitir uma série de ‘cincos’, indicando que tudo estavam bem. Então, de repente, os números mudaram para uma série de ‘três’. Ocorreram uns breves segundos de terror – um ‘dois’ era uma avaria, mas o que era um ‘três’? Após uns segundos agonizantes, os números reverteram para os ‘cinco’. O engenheiro Feoktistov recorda que “estas interrupções, de alguns segundos, encurtam as vidas dos desenhadores.”

Durante a fase propulsionada do voo, o pulso de Gagarin atingiu um máximo de 150 batidas por minuto. Apesar de Popovich ser oficialmente o ‘capcom’ para a missão, a excitação de Korolev absorveu-o por completo e tomou as comunicações pessoalmente durante uma boa parte da ascensão orbital, constantemente perguntando a Gagarin acerca do seu bem-estar:

06:10UTC

Korolev: A carenagem foi separada, tudo está normal. Como te sentes?

Gagarin: … Separação da carenagem… Eu vejo a Terra. A carga g está a aumentar um pouco. Eu sinto-me excelente, bem disposto.

Korolev: Bom rapaz! Excelente! Tudo está a correr bem.

Gagarin: Eu vejo as nuvens. O local de aterragem… É lindo. Que beleza! Como me escutas?

Korolev: Ouvimos-te bem, continua o voo.

A inserção orbital ocorreu finalmente a T+676 segundos logo após o final da queima do motor RD-0109 do terceiro estágio. Pela primeira vez na história, um ser humano havia escapado às garras gravíticas da Terra e entrado no espaço exterior. Os parâmetros orbitais iniciais para o veículo espacial Vostok eram 175 km por 302 km com uma inclinação de 65,07º em relação ao equador. A órbita era muito mais elevada do que a que havia sido planeada para o voo; o apogeu era cerca de 70 km mais elevado, indicando uma performance imperfeita do foguetão lançador. Quando os parâmetros foram relatados a Baikonur a partir do centro de controlo de voo no NII-4 em Moscovo, sem dúvida que se criou uma pequena ansiedade devido ao facto de que a órbita mais elevada poderia resultar numa missão mais longa caso ocorresse um problema na retrotravagem.

Imediatamente após entrar em órbita, Gagarin relatou que se sentia excelente e descreveu vividamente as imagens no exterior da sua escotilha. No seu relatório secreto após o voo, ele recordou as suas sensações de ser o primeiro ser humano a experimentar a microgravidade prolongada:

YuriGagarinVostok 14Comi e bebi normalmente. Podia comer e beber. Não notei qualquer dificuldade fisiológica. A sensação de ausência de peso era de certa forma pouco familiar comparado com as condições na Terra. Aqui, sentes como se estivesses suspenso por cintas numa posição horizontal. Sentes como se estivesses em suspensão. Obviamente, o sistema de suspensão à medida pressiona o tórax… Mais tarde habituei-me e não tinha sensações desagradáveis. Escrevi algumas notas no meu livro de registo, relatei, trabalhei com o teclado de telégrafo. Quanto comia, também bebia água. Deixei a placa de escrita sair das minhas mãos e ela flutuou juntamente com a caneta à minha frente. Então, quando tive de escrever o relatório seguinte, peguei na placa, mas a caneta não estava onde a havia deixado. Havia flutuado para algum sítio. Fechei o meu livro de registo e arrumei-o no meu bolso. Já não tinha qualquer utilidade, porque não tinha nada com que escrever.

Uma vez os parâmetros orbitais precisamente determinados, os controladores no NII-4 enviaram os números para as agências de notícias em Moscovo, instruindo os jornalistas a abrir os envelopes secretos. Devido a uma grosseira ineficiência, a agência de notícias Soviética TASS não foi capaz de anunciar o lançamento até uma hora após a partida de Gagarin. Todos em Baikonur estavam desconcertados, pouco certos sobre a razão pelo facto de a notícia ainda não ter sido anunciada após as garantias de que seria. Finalmente, cinquenta e cinco minutos após o lançamento, a famosa personalidade Soviética Yuri B. Levitan anunciava:

O primeiro navio espacial do mundo “Vostok” com um humano a bordo foi lançado para uma órbita em torno da Terra a partir da União Soviética. O piloto-cosmonauta do satélite navio espacial “Vostok” é um cidadão da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, Major da Aviação Yuri Alekseyevich Gagain.

Os serviços de inteligência norte-americanos estavam já conhecedores da missão antes do anúncio. Uma estação de inteligência electrónica no Alasca havia detectado as transmissões do veículo espacial, vinte minutos após o lançamento. Outras intercepções das comunicações em tempo real trinta e oito minutos mais tarde mostraram claramente um humano movendo-se no interior do veículo espacial.

A maior parte da órbita única de Gagarin foi passada a observar a vista através da escotilha e os sistemas do veículo. Não estavam planeadas quaisquer experiências para a missão, e não foram detectadas anomalias durante o seu tempo em órbita. Devido à preocupação dos médicos acerca dos efeitos adversos da ausência de peso na psicologia do cosmonauta, foram tomadas precauções para garantir que o cosmonauta não poderia controlar o veículo espacial e colocar a sua vida em perigo. Um código especial de seis dígitos foi programado num ‘livro lógico’ especial para bloquear o sistema de controlo da cápsula; a Gagarin, não foram ditos três dos dígitos. Se a Vostok perdesse a ligação de comando com o solo, então Gagarin poderia abrir o envelope especial que continha o código (1-2-5) e assim desbloquear o sistema de controlo. De outra forma, todas as acções durante o voo teriam lugar de forma automática ou eram controladas pelo solo.

Quando o contacto com Zarya-1 em Baikonur foi perdido acerca de sete minutos após o lançamento, Gagarin manteve o contacto com Zarya-2 em Kolpashevo e Zarya-3 em Yelizovo (os comunicadores em Zarya-2 eram o Tenente-coronel da Força Aérea G. I. Titarev e o representante da unidade militar n.º 32103 Tenente B. V. Seleznez. O comunicador em Zarya-3 era o Coronel da Força Aérea M. F. Karpenko. Adicionalmente, as comunicações eram também mantidas com a estação em Khabarovsk (Coronel da Força Aérea M. P. Kaduskin) e em Moscovo (Desna) no NII-4 (Capitão V. I. Khoroshilov). Antes da retrotravagem, a nave foi orientada para a atitude correcta utilizando o sistema de sensores solares, resultando em três comandos para activar os pequenos motores. O sistema de retrotravagem TDU-1 foi accionado com sucesso às 0725UTC, e Gagarin notou o estado de todos os sistemas, gravando os seus comentários num gravador porque se encontrava fora da cobertura das comunicações com o solo.

O motor de travagem foi accionado exactamente por 40 segundos. Durante este período, ocorreu o seguinte. Mal o motor de desligou, ocorreu um abanão e a nave começou a rodar em torno do seu eixo a uma velocidade muito alta. A Terra passava no ‘Vzor’ do topo superior direito para a parte inferior esquerda. A rotação era de cerca de 30 graus por segundo, pelo menos. Eu estava num ‘corps de ballet’: cabeça, depois os pés, cabeça, depois os pés, rodando rapidamente. Tudo estava a andar à roda. Agora vejo África (isto aconteceu sobre a África), a seguir o horizonte, depois o céu. Tinha pouco tempo para me cobrir para proteger os meus olhos dos raios de Sol. Eu pus as minhas pernas na escotilha, mas não fechei as cortinas.

Após a ignição do motor de retrotravagem, a grande secção instrumental do veículo deveria separar-se do módulo de descida esférico, com este a descer nas camadas superiores da atmosfera. Foi precisamente neste ponto que a única avaria significativa ocorreu na missão:

Perguntava-me o que se estava a passar e esperei pela separação. Não houve separação. Eu sabia que estava prevista para 10 a 12 segundos depois a actuação do retro motor. Quando foi actuado, todas as luzes do painel de controlo apagaram-se, eu senti que mais tempo havia passado, mas não havia separação. A luz do painel ‘Aterragem 1’ não se havia apagado.

O mecanismo de separação, composto por quatro tiras de metal que se juntavam num único fecho, evidentemente libertara os dois módulos a tempo, mas os compartimentos mantiveram-se frouxamente ligados por alguns cabos; o módulo de descida mais pesado permanece por debaixo do módulo de instrumentação mais leve à medida que o veículo espacial reentrava na atmosfera. Apesar da situação ser preocupante, não parece que a vida de Gagarin esteve ameaçada, tal como havia sido sugerido por alguns analistas ocidentais quando este incidente foi finalmente revelado em 1991. Gagarin, que estava claramente ciente a situação, permanece calmo como sempre:

ainda não há sinais da separação. Continua o ‘corps de ballet’. Pensava que algo havia corrido mal. Verifiquei o tempo no relógio. Cerca de dois minutos haviam passado que não havia separação. Eu relatei através do canal de comunicações (de alta frequência) de que a retrotravagem havia ocorrido normalmente. Eu estimei de que seria capaz de aterrar normalmente de qualquer das formas, porque a distância até à União Soviética era de seis mil quilómetros e a União Soviética era de cerca de oito mil quilómetro de comprimento. Isso significava que eu poderia aterrar antes do extremo Leste da Soviético. Assim, eu decidi não me preocupar muito sobre isso. Utilizai o telégrafo para transmitir a mensagem de ‘VN’ significando que ‘tudo corria bem’.

A separação finalmente ocorreu às 07:35UTC, cerca de dez minutos mais tarde do que o previsto, salvando o veículo espacial de uma perigosa reentrada. A descrição de Gagarin de uma reentrada balística, a primeira na história, foi vivida e cheia de detalhes:

Subitamente apareceu uma brilhante luz púrpura nos bordos das cortinas. A mesma luz púrpura podia ser observada na pequena abertura na escotilha direita. Senti oscilações do veículo espacial e a cobertura a queimar. Não sei o que causava o som de algo a partir: se era a estrutura ou se era a expansão da camada resistente ao calor como resultado deste, mas eu ouvia som de fracturas. A frequência era de aproximadamente uma ruptura por minuto. De forma geral, sentia que a temperatura era alta… A seguir as sobrecargas começaram a aumentar gradualmente. A bola estava constantemente a oscilar em torno de todos os eixos. À medida que o factor de carga atingia o seu pico, eu podia ver o Sol. Os seus raios penetravam na cabina através das escotilhas. Pelos raios reflectidos do Sol eu podia determinar a forma como a nave espacial estava a rodar. Na altura em que o factor de carga atingiu o seu máximo, as oscilações do veículo espacial reduziram 15 graus. Nesse momento eu senti que o factor de carga atingiu cerca de 10g. Houve um momento durante cerca de 2 ou 3 segundos quando as leituras dos instrumentos tornaram-se turvas. A minha visão ficou um pouco cinzenta. Eu estiquei-me de novo. Isto funcionou, e tudo assumiu os seus devidos lugares.

YuriGagarinVostok 15A uma altitude de 7.000 metros, abriram-se os pára-quedas principais do módulo de descida e então a primeira escotilha foi ejectada da cápsula. Por sua vez, Gagarin foi ejectado do veículo, ainda no seu assento, só dois segundos mais tarde. Olhando para baixo, ele imediatamente reconheceu que a região de aterragem era perto do Rio Volga. Separou-se do assento e o seu pára-quedas pessoal abriu-se. Mais tarde recordava:

Quando estava no treino de salto de pára-quedas, saltamos muitas vezes sobre este mesmo lugar. Voamos muito aqui. Eu reconheci a linha de caminho de ferro, uma ponte ferroviária sobre o rio, e a longa camada de terra que se estendia pelo Volga. Pensei que era provavelmente Saratov. Eu estava a aterrar em Saratov.

O controlo no solo passou longos minutos em tensão a seguir a reentrada após o corte das comunicações. Pouco após a ocorrência do comando para a retrotravagem, Korolev telefonou a Khrushchev, que se encontrava na sua casa de férias em Pitsunda, dizendo-lhe que “o pára-quedas abriu-se, e ele está a aterrar. O veículo espacial parece estar Ok!” De forma excitada, Khrushchev perguntava, “Ele está vivo? Ele está a enviar sinais? Ele está vivo? Ele está vivo?

Gagarin aterrou de uma forma relativamente suave num campo próximo a uma profunda ravina às 07:53UTC, somente uma 1 hora e 46 minutos após o lançamento (durante anos a hora de descida de Gagarin foi indicada como sendo 07:55UTC, porém novos dados referem que Gagarin aterrou às 07:53UTC e a cápsula às 07:48UTC.). O ponto de aterragem era a 26 km a Sudeste da cidade de Engels na região de Saratov, próximo da vila de Smelovka. Imediatamente após a aterragem, ele teve alguns problemas para abrir a válvula de ar do seu fato espacial, e demorou seis minutos de «luta» antes de ser capaz de respirar ar natural. A sua primeira preocupação foi a de relatar que se encontrava bem:

YuriGagarinVostok 16Tinha de fazer algo para enviar uma mensagem a dizer que havia aterrado normalmente. Subi uma pequena colina e vi uma mulher com uma rapariga aproximando-se de mim. Ela estava a cerca de 800 metros de distância de mim. Eu caminhei na sua direcção para lhe permutar onde poderia encontrar um telefone. Então eu estava a caminhar na sua direcção, quando reparei que a mulher estava a abrandar e que a rapariga estava a afastar-se dela e a correr na direcção oposta. Quando vi isto, eu comecei a acenar as minhas mãos e a gritar: “Eu sou um amigo. Eu sou Soviético!” Ela disse-me que podia utilizar o telefone do campo. Eu pedi à mulher para não deixar ninguém tocar no meu pára-quedas enquanto eu me dirigia para o edifício. À medida que nos aproximávamos do pára-quedas, vimos um grupo de homens, cerca de seis no YuriGagarinVostok 17total – condutores de tractores e mecânicos do campo agrícola. Eu falei com eles. Disse-lhes quem eu era. Eles disseram que as notícias do voo espacial estavam a ser transmitidas naquele momento pela rádio.

As equipas de resgate acabaram eventualmente por chegar ao local e levaram-no para uma unidade militar não muito longe de Engels, onde recebeu um telegrama de felicitações de Khrushchev e relatou oficialmente via telefone ao Comandante em Chefe da Força Aérea Vershinin, referindo-lhe ter finalizado a sua missão. O adjunto de Vershinin, Coronel General Agaltsov, foi o primeiro oficial espacial de alta patente a encontrar-se com o cosmonauta, e após mais telefonemas de felicitações de Khrushchev e de Brezhnev, Gagarin foi rapidamente escoltado para Kuybyshev nas colinas Zhiguli no Volga.

Em Baikonur, uma vez conhecidas as notícias de que Gagarin estavam em segurança, as tensões que haviam permanecido durante toda a missão dissiparam-se instantaneamente. Após uma pequena reunião da Comissão Estatal, festejou-se com champanhe por entre congratulações mútuas. Korolev estava completamente fora de si, rindo e sorrindo pela primeira vez em muitos dias, excitado e animado para além do que muitos colegas alguma vez viram. Os membros da comissão voaram para o local de aterragem para inspeccionarem o módulo YuriGagarinVostok 19 de descida; testemunhas recordam que Korolev simplesmente não retirava os seus olhos da cápsula, tocando-a e verificando tudo. Após a inspecção, ele voou para Kuybyshev para finalmente encontrar-se com Gagarin, que minutos antes havia sido promovido de Tenente Sénior directamente para Major. Após ver Korolev, Gagarin referiu calmamente, “Tudo está bem, Sergey Pavlovich, está tudo bem.” Segundo um jornalista, Korolev estava tão fora de si com o choque da euforia que ele estava sem palavras: “Não tinha qualquer pista sobre o que (lhe) dizer ou de como responder (a Gagarin).

Durante a manhã seguinte, ocorreu uma última reunião oficial da Comissão Estatal, durante a qual Gagarin descreveu todo o seu voo em grande detalhe, uma narrativa que foi preservada em fita. Após o monólogo, os membros da comissão perguntaram-lhe uma série de questões sobre vários aspectos do voo. A 19 de Abril, o Marechal Vershinin apresentou formalmente as transcrições de ambas as sessões ao Comité Central. Ambas YuriGagarinVostok 21foram classificadas “Muito Secretas” e indisponíveis para os investigadores até 1991, trinta anos após a missão.

A 14 de Abril, Gagarin regressou ao aeroporto de Vnukovo em Moscovo enquanto milhares de espectadores o aclamavam. Uma procissão de automóveis seguiu de seguida para a Praça Vermelha, onde Khrushchev, Brezhnev, Kozlov e outros líderes do estado Soviético se banhavam no sucesso inqualificável da primeira missão ao espaço por um humano. Foi um momento sem igual na história Soviética, muito possivelmente o zénite absoluto de mais de quarenta anos de feitos Soviéticos no espaço. Classificada durante anos pelo Ocidente pela sua tecnologia atrasada e costumes antiquados, a União Soviética tinha dado abruptamente um dos mais importantes passos na história da humanidade, a primeira viagem espacial humana. Foi um dia cheio de hipérbole para milhares de pessoas nas ruas, mas nada menos teria feito justiça ao que acabara de ocorrer. Korolev, o arquitecto chefe deste feito permanecia, como sempre, anónimo entre as multidões. Ele viajava vários carros atrás no veículo normal e sem identificação especial, impedido de utilizar as suas prévias condecorações estatais na sua lapela por receio de que agentes Ocidentais pudessem suspeitar de algo. Tal era o curioso e talvez triste legado de uma poderosa e grande nação, sem sentir o peso das noções de liberdade política.

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O voo de Yuri A. Gagarin irá sem qualquer dúvida permanecer como um dos maiores marcos não só na história da exploração espacial, mas também na história da humanidade. O facto de que este feito foi levado a cabo com sucesso pela União Soviética, um país completamente devastado pela guerra somente dezasseis anos antes, torna o feito ainda mais impressionante. Ao contrário dos Estados Unidos, a URSS teve de começar de uma posição de tremenda desvantagem. A sua infra-estrutura industrial havia sido arruinada, e as suas capacidades tecnológicas estavam na melhor das hipóteses desactualizadas. Uma boa porção da sua terra havia sido devastada pela guerra, e havia perdido mais de 25 milhões de cidadãos. Assim, comparações da estranha corrida entre as duas superpotências nos anos após o Sputnik são, em algumas maneiras, distorcidas pela ausência de contexto. No mais cruel dos termos, foi uma sociedade devastada pelo totalitarismo equipada por máquinas desactualizadas a competir contra um país democrático e intacto, e equipado com uma tecnologia muito superior. Ambos os exerciam o imperativo político de explorar o espaço, mas foi o estado totalitário que tomou a dianteira de forma opressiva.

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Por Asif A. Siddiqi. Tradução e edição Rui C. Barbosa

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