Coreia do Norte perde Kwangmyongsong-3



 

A Coreia do Norte levou a cabo o lançamento do foguetão Unha-3 com o satélite Kwangmyongsong-3. Aparentemente o foguetão ter-se-á desintegrado entre os 60 e os 90 segundos de voo, com os destroços a despenharem-se no mar.

O lançamento terá ocorrido às 2239UTC do dia 12 de Abril.

O Kwangmyongsong-3 foi definido como sendo um satélite científico,no entanto muitos analistas duvidam da verdadeira utilidade do satélite.

Muito se especulou sobre o verdadeiro objectivo deste lançamento norte-coreano. O foguetão Unha-3, uma versão melhorada do foguetão Unha-2 utilizado em Abril de 2009 para tentar colocar em órbita o satélite Kwangmyongsong-2, é um foguetão espacial mas também um meio para testar a tecnologia que no futuro poderá ser utilizada para o desenvolvimento de um míssil balístico intercontinental. Assim, o Kwangmyongsong-3 poderia ser apenas uma fachada para um teste militar da Coreia do Norte que segundo algumas fontes sul-coreanas, se prepara também para realizar um novo teste atómico. Nesta altura a Coreia do Norte está ainda a muitos anos de conseguir «miniaturizar» um dispositivo nuclear (a verdadeira preocupação do mundo ocidental) e assim a verdadeira utilidade do Unha-3 (ou do míssil Taepodong-2) para o transporte destes dispositivos é actualmente quase nula.

 

Vários observadores têm tentado explicar o satélite Kwangmyongsong-3, havendo mesmo quem se refira ao satélite como apenas uma caixa oca sem qualquer utilidade. De facto, tornava-se complicado fazer a autópsia do satélite sem se conseguir ver o seu interior e os dispositivos protuberantes pouco ajudam na análise, podendo no entanto tratar-se de sensores e câmaras de observação. A Coreia do Norte referiu que o satélite seria utilizado como um posto de observação meteorológica, fornecendo também dados sobre os recursos naturais do país. O satélite deveria ser colocado numa órbita polar.

Coberto por painéis solares fixos, o satélite não tinha qualquer meio de propulsão ou de correcção de atitude próprio, podendo no entanto estar equipado com um mastro que após a sua entrada em órbita seria colocado em posição fornecendo assim um gradiente de gravidade para o estabilizar. Segundo fontes norte-coreanas as suas dimensões são 1372 x 602 x 732 mm.

 

Apresentado ao mundo no passado dia 8 de Abril, muito se conjecturou sobre o verdadeiro objectivo deste lançamento. Se por um lado a Coreia do Norte se esforçou em reforçar as suas declarações sobre os objectivos pacíficos do Unha-3, muitos países referem a propaganda do regime norte-coreano que procura insistentemente esconder o seu verdadeiro objectivo de desenvolver um meio de transporte capaz de enviar armas de destruição maciça a meio mundo de distância.

De facto, a Coreia do Norte está impedida por várias resoluções das Nações Unidas de desenvolver tecnologias que sejam aplicadas no desenvolvimento de mísseis balísticos intercontinentais. Por outro lado, a Coreia do Norte sempre fez tábua rasa dessas resoluções, fazendo salientar o seu direito legítimo ao desenvolvimento destas tecnologias como forma de garantir a sua independência e segurança.

Então surge a questão: O que é o Unha-3 – um foguetão pacífico ou um míssil ameaçador? Na verdade é um pouco de ambos. Recentemente, Ryu Gum Chol, Director Executivo da Exploração Espacial no Departamento de Tecnologia Espacial da Coreia do Norte, referiu que o Kwangmyongsong-3 pesava somente 100 kg e que para uma arma, este peso seria pouco eficaz. Por outro lado, sublinhou que o lançamento de um míssil balístico intercontinental necessitaria de uma tecnologia mais avançada e que não teria lugar de uma posição fixa. Ora, a referência à massa do Kwangmyongsong-3 como forma de justificar a veia pacífica desta lançamento pode levar em erro, pois um míssil balístico de dois estágios baseado no Unha-3, teria uma capacidade de carga muito superior a 100 kg. Sabendo que os Estados Unidos possuem ogivas nucleares com uma massa de cerca de 100 kg e admitindo que a Coreia do Norte ainda não foi capaz de fabricar ogivas deste tipo, logo este míssil desenvolvido a partir do Unha-3 poderá ser utilizado para o transporte destas ogivas mais pesadas. A referência à necessidade de se proceder a um lançamento a partir de uma posição móvel para se justificar a natureza militar de um vector deste tipo, também é enganadora. Tanto a União Soviética (R-7, etc.) como os Estados Unidos (Redstone, Atlas, Titan, etc.) desenvolveram mísseis balísticos intercontinentais que eram lançados a partir de posições fixas.


No tabuleiro do jogo estratégico que se pratica na Ásia, os próximos dias poderão vir a ser o rebentar de uma panela de pressão ou o silvo da válvula de escape de uma situação política que se arrasta há décadas e que representa o último resquício de uma guerra fria que baseada numa doutrina nuclear, manteve um instável equilíbrio desde a Segunda Guerra Mundial.

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